Podes passar palavra?
O Instituto Português de Oncologia (IPO) está a angariar filmes VHS / DVDs
para os doentes da unidade de transplantes que estão em
isolamento.
São crianças e adultos que precisam de um transplante de medula e de
estar ocupados durante o tempo de internamento, explicou ao Portugal
Diário a Enfermeira responsável pela unidade, Elsa Oliveira.
A falta de 'stocks' torna necessária a ajuda da população: 'Precisamos
de filmes para as pessoas mais desfavorecidas que não têm
possibilidade de os trazer. Algumas crianças trazem os seus próprios
filmes e brinquedos mas depois quando têm alta levam-nos', acrescenta.
O IPO aceita todos os géneros de filmes, mas a preferência vai para a
comédia.
Numa altura menos feliz das suas vidas, um sorriso vai fazer bem a
quem passa dias inteiros numa cama de hospital. Rir é sempre um bom
remédio :-)
As cassetes de video ou DVD's antigos podem ser enviadas para:
Instituto Português de Oncologia de Francisco Gentil
Unidade de Transplante de Medula
A/C Sr.ª Enf. Elsa Oliveira
Rua Professor Lima Basto
1070 Lisboa
Ou então, informe-se pelo telefone: 217229800 (geral I.P.O.) 217266785
(Cristina)
"Cirurgia de lipoaspiração?"
Pelo amor de Deus, eu não quero usar nada nem ninguém, nem falar do
que não sei, nem procurar culpados, nem acusar ou apontar pessoas, mas
ninguém está percebendo que toda essa busca insana pela estética ideal
é muito menos lipo-as e muito mais piração?
Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu.
Hoje, Deus é a auto imagem. Religião, é dieta. Fé, só na estética.
Ritual é malhação.
Amor é cafona, sinceridade é careta, pudor é ridículo, sentimento é
bobagem.
Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Roubar pode, envelhecer, não.
Estria é caso de polícia. Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?
A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa
em mais nada além da imagem, imagem, imagem.
Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.
Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o
relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa.
Não importa o outro, o coletivo. Jovens não têm mais fé, nem
idealismo, nem posição política.
Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar
legal, quero caminhar, correr, viver muito, ter uma aparência legal
mas...
Uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens
lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.
Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude.
Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.'
' Cuide bem do seu amor, seja ele quem for '
Herbert Vianna

Esta guitarra que canta
para ouvidos de surdo...
De nada serve uma manta
quando tudo sabe a esturro.
Esta guitarra sem dedos
mostra o amor que morreu
quando ela, cheia de medos,
tudo, de mim, escondeu.
Esta guitarra invertida
é como a vida de todos
sem a experiência vivida:
a da idade dos lobos.
Esta guitarra que canta
é como a cor do tijolo
diluído na garganta
de quem bebe como um tolo.
Às cordas desta guitarra
o meu amor esperei
para poder ser cigarra
e abraçar Cristo-Rei.
Nas cordas desta guitarra
o teu silêncio imperou,
do muro fez-se uma barra
e o castigo ditou.
Mas a guitarra não era,
nem uma flor de jasmim.
A ilusão que só berra
não viu o meu bandolim?
Quem vive da aparência
e reage à primeira
não sabe o que é ciência,
nem mesmo abrindo a torneira.
De que torneira eu falo?
É a do teu coração
para regar de embalo
e dar-te compreensão.
Deixo esta noite sem farra,
sóbrio, atento ao futuro.
Mas, bandolim ou guitarra,
não passarão o teu muro.
É uma enorme pena,
e com lágrimas te digo:
não sabes ler um poema
sem os olhos do umbigo.
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Voltou linda,
ousada,
embriagada,
a licor beirão,
na falta de amêndoa amarga,
ou das noites do Sertão.
Nesses blocos de pedra manchada
que para a vista eram colchão,
ficou deitada,
excitada,
pensando no meu tesão.
Semi-nua,
Semi-nova,
gemendo como uma colcheia,
esperando por uma prova
saída da nossa ceia.
Na rua envergonhada,
despida de altivez,
a mulher da madrugada
que me pede a gravidez
não sossega sem enxada,
nem sonega a sua vez.
Por vezes o muro ardente
que sufoca o meu olhar
é a tua voz doente
que carrega a "dor de estar".
E oscilas na jornada
como se tivesses burro
carregado de pancada
desejando, de assentada
nesse muro, dar um murro.
E se esperas pela outra
que em ti já habitou,
qual adolescente potra...
será mesmo que voltou?
Título, modelo e fotografia: Chris Ramos
texto: Pássaro Distante
I
A falta de nitidez
resulta talvez
da fluidez
dum pensamento
que omite, nas palavras,
a sua transparência.
II
Quatro pedras na mão
com telhados de vidro:
esventram coração
para contentar marido?
Que senso de justiça
e irmã humildade
exalam, da preguiça,
a solidariedade?
É fácil apontar
o dedo a quem amou
para bem camuflar
algo mais que falhou.
III
Numa fase cansado
é fácil prescindir
mas pelo bem amado
não irei desistir.
Mesmo com muito sono
e sofrendo o viver
de um reles Outono
qu' impede de mexer.
Fotografia e texto: Pássaro Distante

Vejo, apenas, os teus lábios,
e tu só verás minhas penas.
Os pensamentos serão sábios,
Se os lábios florirem poemas.
E dos teus olhos? Dilemas:
Que teimas em ocultar?
Ou serão outros esquemas
fundidos no paladar?
Vendo os teus olhos, apenas,
e mau grado estes dilemas,
fecho meus olhos e traço
o laço de certo cansaço.
Foto retirada da internet
Texto: Pássaro Distante

Penduras a chave da tua vida
à volta do pescoço da memória
guardando cada gesto, cada ferida
trazida do recanto desta história.
Mas não te contentaste com as chaves;
trouxeras igualmente a fechadura,
e outros acessórios mais suaves,
pescados ao findar de noite escura.
De todos os objectos, pendurilhos,
obtidos no calor duma paixão,
guardaste, para ti, todos os trilhos
que vão da alma ao meu coração.
Agora não encontro, fatalmente,
a réstia duma luz de bom caminho
como se me sentisse tão doente
e o corpo cravado do teu espinho.
Quiseras um ser honesto e alegre,
com um perfil dócil e exemplar.
Mas é difícil alguém que congregue,
ao teu redor, conduta regular.
Nas malhas da tua oscilação,
com que ostentas a tua batuta,
ignoras silenciosa indignação
dum ser que se prepara para a luta.
E a magia que havia em mim,
no fundo, sabes bem, era ilusão.
É que qualquer imagem tem um fim
para quem não vai além dessa visão.
Tão pouco usando esse vestido preto,
que podia excitar os meus sentidos,
consegues que eu saía deste "gheto":
supere a barreira dos ouvidos.
Por tudo, muda essa exclamação:
não vejo em ti qualquer magia minha!
Tudo será a interrogação
exterior, ou interior que se definha.
Não podes ver, no meu estado civil,
um tipo: "recolher obrigatório"!
Ou "estado de sítio" que, tão vil,
iniba qualquer acto meritório.
Coloco em Deus o rumo desta vida
no limiar duma "nova fronteira",
como s' ordenasse nova partida,
dentr' ou fora da Ilha da Madeira.
Título/Mote e Fotografia: Christina Ramos
Texto: Pássaro Distante


Para quem não percebe a caligrafia:
"Borboleta obsessiva que, por momentos em que a glória antecede o abismo, se sente Senhora do que a rodeia e do que por ela é coberta, ou abafada sem piedade, e implacável na súplica da sua presa. Felizmente é um fugaz momento pois, após a aparência de poder sucede a realidade da libertação. Dela e de quem julga eterno o seu domínio terreno."
Fotografias: Christina Ramos
Modelo fotográfico: Mãos (sem penas) do Pássaro Distante
Texto: Pássaro Distante

Paixão para a vista,
Paixão para os olhos
Exalas, aos molhos,
Um luxo de artista.
Toda ornamentada,
De si floreira,
Sem eira nem beira,
Ou hora marcada.
Aberta brancura
Em tom verdejante,
Que um Pássaro Distante
Cobriu de ternura.
Artista, amada
Por quem não esqueceu,
A quem tudo deu
Numa madrugada.
O verde irradia
A esperança decente
Dum filho doente
Que sucumbiria.
És colo de abelha
Triste, fustigada,
Com a dor cravada
Em casa sem telha.
Teu fundo lilás
Encobre uma dor
De quem, por amor,
Não olhou para trás.
Paixão é teu nome
ou tesão abrupta
na intensa luta
em cama de fome.
Quem é que diria,
com toda essa calma,
que a tua alma,
louca, explodiria?
Flor que me aguarda
No colo da serra,
Ou palco da guerra
Onde tudo arda.
Arda de paixão,
Afinal, teu nome,
Abrigo da fome
De herege oração!
Fotografia: Christina Ramos
Texto: Pássaro Distante

Qual manta de retalhos:
Estas pedras da calçada
amparam uma queda
dessa alma esvoaçada
cuja folha nelas esfrega.
Os retalhos do basalto
salientam fortes marcas
num amor, outrora alto,
trancado nessas arcas.
Em que manta de retalhos...
E que pedras te ouviriam,
esfolada de fuligem?
Será que sucumbiriam
renegando sua origem?
E no rol de questões múltiplas,
qual "cristão herege hebreu",
folhas secas, antes tulipas,
são resquícios do que é meu.
E a manta de retalhos?
Em que manta de retalhos
quererás o meu viver?
Tenho os nervos em frangalhos...
só quero desaparecer.
Se me queres aos teus pés
fica com a seca folha
deixada pelas marés
de quem usa a lei da rolha...
Fotografia: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Mergulho meus lábios nesta fatia de chocolate que me dedicas
estimulada por um orgásmico desejo de absoluto prazer,
e degustando cada migalha e pedaço de recheio,
no interior de minha boca,
como se degustasse,
ansiosa mas calmamente,
cada parte de um corpo
cujo desejo não escondo:
o teu...
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Se eu só lhe fizesse o bem
talvez fosse um vício a mais,
você me teria desprezo por fim.
Porém, não fui tão imprudente
e agora não há, francamente,
motivo para você me injuriar assim.
Dinheiro não lhe emprestei,
favores nunca lhe fiz,
não alimentei o seu génio ruim.
Você nada está me devendo,
por isso, meu bem, não entendo
porquê anda agora falando de mim.
Chico Buarque, letra e música, no piano do Pássaro Distante

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.