
... ou quando a imagem fala por si...

I
Trouxeste uma balada
com a brisa da doçura
no termo da alvorada
e com notas de ternura.
Tu, que foste o meu alento
e a minha perdição,
deixas, leve como o vento,
o transtorno da paixão.
II
Desejava repartir
os pecados cometidos
por quem manda proibir
o "império dos sentidos".
Mas não sou um "pau mandado"
nem gosto de ditaduras,
tão pouco me sinto atado
a "nós" e a "aventuras".
III
Quem se diz tão coerente
e exemplo para o meio,
engana gente decente
e, no privado, é feio.
Mas se tem autoridade...
ai de quem o dedo aponte!
Destrói tudo, na verdade,
e conspurca o horizonte.
IV
Posso ter os meus defeitos
e também oscilações
mas não gosto dos teus jeitos,
cheios de reclamações.
Mulher, do teu fundo bom
que eu, um dia, vi em ti
não me faças deitar som
que anuncie que parti...
V
Se oscilo há razão,
a culpa não é solteira.
Mas não quero o teu perdão
por viver desta maneira.
Iludidos verdes anos
que o Tempo fez sangria
peneirando os "desenganos"
com que vivo o dia-a-dia.
VI
Se queria ser perfeito,
fosse essa a tua vontade?...
Viveria rarefeito
e sem criatividade.
Ser poeta é uma crença,
um dádiva divina;
não escrever será doença,
se quieto: naftalina!
VII
Não me venhas com chantagem,
de quem, de tudo, se queixa.
Só me deixas pouca margem,
ou caroço duma ameixa.
E não uses os meus filhos
como "armas de arremesso".
Nem os afastes dos trilhos
mesmo com outro endereço.
VIII
O que ficou da balada
foi guardado na memória
duma vida assim, errada,
que, contada, dará história.
Mas, do errado ou certo
não há legitimidade
para dizer. Longe ou perto,
tentei sempre a verdade.
IX
Só que o grande problema
foi que não quiseste ouvir
e criaste-me o dilema
de escolher quando partir.
Estou cansado do umbigo
de quem abusa do "eu".
Sinto-me um foragido
e com "Coração Ateu"...
X
Nesta vida lusitana
há falta de paciência.
Quem à mínima reclama
não terá melhor ciência.
Muitas vezes, o conflito
vem da precipitação.
Por isso é que reflicto
e contenho a reacção.
XI
Do rosário de pecados,
a julgar antes da "Barca",
certamente teus "recados"
aliviarão a arca.
Minha vida paciente
e, por vezes, franciscana
merecerá certamente
a ponderação profana.
XII
Sinto os resquícios da brisa,
do melhor que houve em ti.
Mas o meu corpo precisa
da paz que jamais vivi.
Do termo do teu encanto,
ou do cais do teu amor,
e escorrendo do meu pranto
lágrimas: terão sabor!
(gente@feliz.com... lágrimas)
XIII
Já temos a casa paga,
não há encargos absurdos.
Ofereço-te a morada.
Em troca ficamos mudos!
O teu ar omnipotente,
de quem tudo quer e pode,
sacrificou um presente
que, agora, se sacode.
XIV
Ainda quero ser feliz
Senão, nada tem sentido.
Em Madrid ou em Paris?
Nada está decidido...
Não posso ficar sereno
às tuas variações.
Até no respirar pões dreno
e censuras omissões.
XV
Da vida corremos risco
de, ambos, ficarmos brutos,
não bastasse o jeito arisco,
os achaques e os surtos...
Ainda vamos a tempo
de arrepiar caminho
podendo dar o exemplo
aos filhos do nosso ninho.
Arte Digital: Chris(tina) Ramos
Texto e música: Pássaro Distante

Passou uma brisa e seduziu-me:
mostrou o chilrear dos passarinhos...
Mal soubera, a falsa iludiu-me:
Chegaram parasitas e seus ninhos.
Aquilo que brilhara de amarelo
e que todos chamam de linda flor
perdera todo, todo, o seu belo
assim como o seu brilho e o fulgor.
Vês o seco que grassa à minha volta?
Até nem esta rima bem respeita.
Passa por aqui com sua escolta
e só sairá quando satisfeita.
Eu queria manter firme a minha luz
e passasse incólume no tempo,
de modo a antever a minha cruz,
ajudando os outros com meu exemplo!
Há homens que são esguichos de serpentes;
seus ovos são gerados no Inferno!
Com missão, nesta vida, "entre dentes",
De tornar a vida constante Inverno...
Fotografia: Chris ramos
Texto: Pássaro Distante

O lume da panela de pressão
agita-se ao teu descontentamento,
adultera o belo da paixão,
nublado de lágrimas de lamento.
Essa luz de fogo e vigorosa,
nutrida com rigor e disciplina,
no fundo, é carência amorosa
que trazes dos teus tempos de menina.
O vermelho dessa periferia
queimando o mais simples do caminho
impede esta minha romaria
ao centro do teu ser em desalinho.
Luz vermelha: até poderia ser
chama que mantivesse a ilusão
de ser feliz até ver perecer
um corpo que alberga esta visão.
Mas entre o amarelo e o vermelho
divide o preto como uma barreira
anunciando um amor já tão velho
sem pingo saído duma torneira.
Não deixa de ser grande a ironia
da vida que sonhámos em conjunto,
com fé, companheirismo e alegria,
e igualdade em qualquer assunto.
Mas eis que, do covil da aparência,
surgindo sem ser bem anunciada,
a marca vermelha da prepotência
tornou a nossa vida angustiada.
Até o amarelo já não brilha
E onde havia Sol só sobra a sombra
que torna um inferno a minha Ilha
na qual não há lugar onde me esconda.
Até as tuas pétalas se curvam
à tua própria autoridade.
Cuidado! Possa ser que não te acudam
quando caias em ti, nesta verdade.
A marca do teu ser, inesquecível,
com que tentas mudar meu coração,
não justifica pranto inflexível,
intermitente, como uma obsessão.
Mulheres que desejam amestrados
os homens que escolheram para maridos
não vêem seus futuros condenados,
abafados por constantes ruídos.
E mesmo que sejas "a" flor mais bela
que o jardim desta vida me mostrou,
salpicas de amargura a aguarela
e cravas com fivela quem te amou!
Se sair do caminho seja um erro,
mas, mesmo assim, tome essa decisão,
prefiro que me vejas no enterro
a sentir-me enterrado à tua mão!
Fotografia: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
Intro:
Deusa Celta esta prece
É meu jeito de pedir
Por alguém qu' ora padece
e precisa de sorrir.

No meio de um mar de gente
concentro na solidão
rezando por alma ausente
com fervor e com paixão.

I
Minha Deusa celta
porque abandonou
uma alma esbelta
que me revelou?

Mas será que sente
esta agonia
ao saber doente
a Musa Maria?

II
Na sombra do vento
solto incomodado
profundo lamento,
tão contrariado.

Rezo para que viva
no mais puro amor.
Quero a minha Diva
no pleno fulgor.

III
O destino lança
um profundo apelo.
Tenho confiança
que ela possa vê-lo.

Por tudo o que prezo,
Celta Divindade,
sobretudo rezo:
Tende piedade!

IV
Não se mostra e tira
o "laço sagrado"
dum amor que gira
em som delicado.

E mesmo que ausente
ou de olhar sem fim:
Ao Amor doente
o melhor de mim!

V
Meu amor não ouças
a "Voz do Além",
Nem que parta as louças
duma Casa-Mãe...

Vê: a vida é bela
e lindo o luar,
mesmo à luz da vela
respirando mar...

VI
Mar de confiança
e de fé na vida
traduz a esperança
por minha querida.

Olhando o futuro
ajude a prever:
Que saia do escuro,
Veja o Sol nascer!

VII
Que Deusa ilumine
quem tenha o "bastão"
e, à luz sublime,
firmeza na mão.

Que ele intervenha
com total destreza:
Meu amor mantenha
saúde e beleza.

VIII
Nesta agonia
de meses a fio
rezo por Maria
com todo o meu brio.

Mas mesmo dormente
de tanto rezar
doo minha mente
para o seu bem-estar.

IX
O melhor ofício
é a sua entrega.
Nenhum sacrifício
esse ser emprega.

Deixa, pois, nas linhas
Todo o seu labor:
Poeta acredita
No seu grande amor!
Letra e música. Pássaro Distante

Atiças-me com esse brilho prateado de mulher, convidando-me a mergulhar por entre essas pétalas que amparam o teu âmago... e o meu desassossego.
Título e Foto: Christina Ramos
Texto: Pássaro Distante
Versão musical (29.07.2007 e 19.08.2007)
I
Cobrem os olhos desejos magoados
Por contos guardados em lábios judeus.
Fitam os olhos tormentos passados
Ímpetos negados pelos olhos teus.
Calas nos olhos sonhos adiados,
Abraços vedados, escombros de dor.
Gestos perdidos, enredos frustrados,
Lamentos tapados no teu cobertor.
Refrão
Caem dos olhos queixumes salgados,
Desorientados por olhos ateus.
Gestos feridos e contrariados
Nos versos em branco das sombras de Deus.
II
Guardas nos olhos sons embaciados
De tempos passados em noites de amor:
Loucos gemidos, prazeres trocados,
Corpos saciados em leitos de flor.
Mostras, nos olhos, teu ar deplorado,
Absorto, enjeitado, sem sombra de luz.
Cedes carinhos, automatizado,
Seguindo trajectos em torno da cruz.
Refrão
…
III
(19.08.2007)
Escondes os olhos nessas mãos marcadas,
Quiçá deformadas por tanto labor…
E, orgulhosas, passam madrugadas
Decerto acordadas, guardando rancor.
Fitas meus olhos, em jeito inocente,
Sorriso ausente, ensurdecedor…
Abres teu peito: teu corpo carente
Querendo somente gemidos e dor.
Fotos: retiradas da Internet.
Texto e Música: Pássaro Distante

Uma flor à moda antiga,
qual Senhora confidente,
que, em seus folhos, abriga,
qualquer ente impaciente.
Tem a dor no coração
apesar de admirada
pela grande multidão,
de visão tão apressada.
É por essa rapidez,
"carpe diem" para a vista,
que desfaz tudo o que fez
logo após fácil conquista.
É esta fragilidade
dos momentos, em que trazes,
à Senhora, a verdade,
ou meros lapsos fugazes.
Colorindo albergaria,
com divã de alma santa,
a flôr da minha poesia
cala o que tem na garganta.
Já lhe basta a solidão
de quem vive para brilhar
e a quem dizemos "não"
quando se quer libertar.
Côr, por isso, bela e triste,
mas esteio do firmamento
de todo um Ser que resiste
a levar-se pelo vento.
Quem isolar-se prefere
sabe que a felicidade
é ilusão que se fere
à primeira adversidade.
Por isso, minha Senhora,
ao chegar a sua vez,
mostre apenas, nessa hora,
pétalas de lucidez.

Eu queria o rigor
duma vida a preto-e-branco,
mas quem sofre de amor
não consegue almejar tanto...
Fotos: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Espremi aquela laranja
na transparência de veneno,
e ajeitei a tua franja
ao servi-la neste sereno.
Último golo açucarado,
no frio da noite servido
aguarda-te, desamparado,
à porta do desconhecido.
A diferença, à de Cristo,
está na tua ignorância
de prever o que fora visto
e acalmasse a tua ânsia.
Nessa vontade de viver,
não olhando a qualquer risco,
acabaste por falecer
servida do meu petisco.
E já qu' essa alma se cinde
da armadura, ou matéria,
proponho-te este meu brinde
de forma, mais ou menos, séria.
O veneno fora a lança
que implodira no teu regaço,
após anos numa balança
e já cansada de... cansaço!
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Anseio, com inquietude, pelo regresso deste Mundo ao equilíbrio perdido,
à razoabilidade,
à tolerância,
ao sentido de justiça,
à compaixão
e ao final de um rude estado colectivo de indiferente "memória curta"...
Texto: Pássaro Distante

Mulher que, tão-só caminhando,
e talvez tão serenamente,
perspicaz, nos vai acordando
com os frutos da sua lente.
Acorda-nos para frágil vida
depois de uma noite longa
na qual, quiçá retraída,
revela-nos tudo o que sonda.
Às vezes, em tantos olhares,
(sinónimo de algum barulho?)
escondem-se belos cantares
de amigo, de amor e de orgulho.
Por vezes, no meio das vozes,
alguém, em tom meio mesquinho,
transforma em merda as nozes
que te ofereci com carinho.
Esses "leões do coliseu"
que, a mando dum capataz,
rasgam aquilo o que é meu
e disso fazem seu cartaz.
Acabara uma quinta quadra
entre essas suas distracções.
Pois o tempo é uma ladra
das melhores ocasiões.
Por isso, mulher previdente
que absorves o teu olhar
por uma lente indecente
que te faça valorizar:
Tens aqui, com ou sem a veste
dum tecido roto, mas limpo,
pela vida tornado agreste,
acompanhado de absinto.
Podes querer o meu olhar,
a visão cheia de vazio,
pois não te quero enganar
quando disseres que tens frio...
No trajecto de homem errante,
que, ao colo de uma mulher,
já saciada, e num instante,
deixou de querer o que quer.
Lançou-se, então, noutros olhares
aos quais deu o melhor de si,
nas ruas, nas camas, nos bares,
e noutros lugares que vivi.
Quisera a manhã submersa
da fonte da inspiração
deitada em tapete persa,
mas sempre com câmara à mão...
Assim se passaram os anos
e quisera ver-me, já velho,
mas quando trouxe mais enganos
só fotografou um espelho.
Surgiu, assim, como do nada
a lente, em jeito invertido,
prendida por unha pintada
captando momento perdido.
Mulher que, ao sentir o frio
do olhar do ex-companheiro,
percebeu, enfim, o vazio
de quem vivera em cativeiro.
Foto (com o título: "Apanhei-te"): Chris Ramos (ver "Olhares da Chris")
Texto: Pássaro Distante

Foste o nó de uma vida
que, em mim, se alcandorara
numa viagem perdida
para quem tanto sonhara.
Não foi feita a caminhada:
esse nó ficara agudo;
a minha corda manchada
pelo negro... sobretudo.
Para desfazer o nó
tinha que desentranhar
um passado em que, só,
não soubera respirar...
"Gato preto, gato branco"...
oxalá fosse comédia
e, sentada nesse banco,
não previsse uma tragédia...
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Vermelha, ou sofrimento,
a mancha abraça o calhau,
movediça como o vento,
agreste como essa nau,
desliza neste momento.
Aguarda a água do mar
ajudada pela maré,
depois de muito penar
pretende banhar-se da fé
que um dia não soube guardar.
Calhau duro e teimoso;
Jovem? Ou principiante,
que, deveras desgostoso,
desiste ao primeiro instante
em tom cerimonioso?
Tão intensa esta espera
como quem lê um soneto.
No branco da atmosfera
vê as marcas do esqueleto
da pegada que trouxera...
Na marcha da maresia,
num compasso sem maestro,
numa estrofe sem poesia,
numa escrita de ambidextro,
sinto os sons da agonia.
Sinto o peso do calhau
e de todo o desconforto,
sem abrigo, ou chão de pau,
que acolha um pé morto
de esperar a dócil nau.
Mulher dura e egoísta,
sedenta do verbo ter,
que desrespeita o artista
e a vontade de viver
numa harmonia prevista.
De tanta espera me canso,
pois não há eternidade
que acalme o balanço
dessa tal ansiedade.
Assim, neste mar, me lanço.
Levo "A Valsa do Adeus",
outra obra do Kundera,
a fronha dos olhos meus,
a herdeira de quem gera
e protegida de Deus.
Agarra-me esta noite.
Amanhã já será tarde
pois, depois de tanto açoite,
no meu peito já não arde
a paixão que me afoite.
É, pois, a marca do tinto
no calhau espalhada.
E eu era tão faminto
pela tua madrugada,
mas, agora, nada sinto.

Levantei-me dessa base
quando vi que era ferro
e passei para outra fase,
após libertar meu berro,
na qual não há quem me case.
Onde estão as tuas flores?
Caiem secas, na varanda,
como caem os amores
submersos a quem manda
sem respeito aos odores.
Pode ser que ressuscitem,
as flores que não cuidei.
Elas talvez se agitem
ao dizeres: "Aqui d' el Rei!"
E em "formatura" fiquem.
Fujo a novo convénio
ao qual ganhei crispação.
Não é preciso ser génio
para saber dizer: não!
Afinal, novo milénio!
Arte digital, foto: Chris Ramos
Título: escolhido por Chris Ramos da música de Pedro Abrunhosa
Texto: Pássaro Distante

Branco sujo sobreposto,
castigo do universo
para profundo desgosto
dum solitário verso.
Branco sujo: Mesmo assim
algo em ti que me cativa:
Fosses cheiro de jasmim
ou mulher de voz altiva...
Branco sujo, sol poente,
no seu perfil cumpridor:
nesse estilo decadente
da rotina e do labor.
Branco sujo rodeado
de um verde de ilusão
face a plano adulterado
para a vil construção.
Branco sujo que herdaste
a pureza do cinismo
com a qual meu Ser mataste
junto à linha do abismo:
Podes estar cheia de plumas
e coberta de razão
mas, nesta vida, não unas
o dinheiro ao coração.
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Do piano que me deste surgem as rosas preenchendo o nosso amor, de um modo completo, indelével, delicado e permanente.
Pelo teu amor, peço, voluntariamente, que os espinhos das rosas marquem o meu corpo, para que nada aconteça ao teu Ser.
Os meus acordes em Lá menor, que sublinham a minha humildade face à Musa-Mor, altiva e distante, ecoam pelo Cais do Pensamento, onde a maresia insiste em castigar a minha profunda solidão.
Descem, tais acordes do lá menor, de meio-tom em meio-tom, até chegarem ao Fá, enfim, ao Fado de uma vida absolutamente consciente de um corpo localizado onde a alma não devia estar.
Tal como os nossos desencontrados caminhos...
Dir-me-ias: se os invertidos são aceites como a nova "classe dominante" (em estilo "metrosexual de maçã reineta") , esta inversão desalinhada do corpo e do espírito não deveria ser considerada... normal?
Não é. Seguramente. Para mim e para ti.
Ambos sabemos que haverá, algures nesta dolorosa caminhada, o tão ansiado ponto de encontro, no qual, retemperada das dores físicas e psicológicas, terás a disponibilidade para virar para uma outra página da tua iluminada vida e seguir em frente, de mãos dadas, serenamente e... em paz.
Brindemos, pois, à paz, a nós e ao futuro.
Ergo um copo de vinho tinto e coloco-o sobre o piano, onde, desafinado, esboço mais uns acordes que transformam qualquer poema numa singela oração pelo teu bem-estar...
Foto (Arte digital): Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Parasitas que perpassam
e atalham o teu ser,
essa tua vida maçam
e secam teu bem querer.
Parasitas que inundam
o calor do coração
e, à mínima, afundam
o prazer da solidão.
Parasitas, indecentes,
que de ti se aproveitam
são os primeiros ausentes
quando os apertos espreitam.
Parasitas ordinários:
armados em "bons rapazes"
e cumpridores de horários
mas de nada são capazes.
Parasitas, iludidos
por estatuto superior,
são uns tristes confundidos
em matéria de amor.
Parasitas, para quem
as pessoas são objecto,
só merecem o desdém
e respingo de afecto.
Parasitas que retiram
o teu belo colorido
pensarão que tudo viram
e que mais nada é devido.
Se parasita quiser
"sugar" o que melhor tens,
dá-lhe a força da colher
e a forca dos vinténs...
Não importa as secas flores
quando ficas com a raíz:
Ela cobrirá de amores
e teu Ser será feliz.
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Das pétalas surgem notas,
uns bálsamos musicais.
Elas não trazem batotas
aos momentos especiais.
São notas de nostalgia
que consigo libertar
do pólen da agonia
que acompanha o meu pensar.
Uma pauta de Jobim
mostrará "Insensatez"
de um passado sem fim,
ou de uma "Regra Três"?
Por aqui vês o dilema,
escrito na "Bossanova",
qual "Garota de Ipanema"
que deite esta flor na cova...
Estar sem ti, não será certo.
Sou a planta isolada
do teu Ser, de Mar Aberto:
fugaz maré dedicada...
Se atravessa a corda bamba
e vai banhar-s' ao Brasil
não resiste a dançar samba,
regressando ao juvenil.
Poder vencer o meu Fado
mostra-se tarefa ingrata,
pois quem vive no pecado
não merece a "Concordata".
Mas para quê a Igreja,
perdida da humildade?
De sermão, velho, boceja:
Burguesa da Nova Idade!
Pareço alma penada
com camadas de alcatrão
escaldado, na estrada,
sem qualquer contemplação.
O cimento que me cerca,
ajudado por ruído,
reforçará minha perca:
O sabor dum sustenido.
Desta vida sei de cor
o suor, das minhas gentes,
traduzido em lá menor
por estratégias indecentes.
A melodia que exalo
e acompanha o cheiro
compensa tudo o que calo
neste leito de ribeiro.
Mais lamento não poder
ouvir os meus próprios sons.
Estou a ensurdecer
Quando ouço os teus tons:
Foz de queixas repetidas
e deveras dissecadas.
Fossem as vidas... vividas
e não tão vitimizadas...
Se do dia vejo o breu -
digo isto sem rancor... -
é sinal que o apogeu
abandonou nosso amor...
Outra pauta de Jobim
que vá buscar ao "baú"
é defesa, para mim,
a qualquer Ser, como Tu.
Se quiseres saber mais,
do teor dos nossos vícios,
para quê ler só jornais
se tens os meus "Sete Ofícios"?
Posso ser ave, ou flôr,
nuvem, lua ou mesmo mar.
Mas se queres meu amor
tens que deixar respirar...
Eu preciso respirar...
Bem preciso respirar!...
Não consegues enxergar?!
É preciso enxertar?
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
Vês-me?

"Vês-me, mas não fazes a mínima ideia de como é que eu sou..."
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
--------------
Que Me Importa?
(18.07.2007)
Que me importa que me ames
Se perdemos a doçura?
Que me importa que te enganes
Se fugimos à ternura?
Da areia deste tempo
Esvaíram-se atributos
Permaneceram os lutos
E o mau comportamento.
Nesta rota dualista,
Entre o véu e o artista,
Vacila passo apressado.
Entre o hoje e a quimera
Suspirando “ai quem me dera
Poder vencer o meu Fado”.
Texto e foto: Pássaro Distante

Mantém-se firme e calada, mas, orgulhosa, não cuidando de saber que as nossas vidas, a de todos, estão entrelaçadas, umas nas outras, mesmo que os silêncios sejam as notas dominantes de uma musicalidade social incipiente, a roçar o nível das Casas do Povo, certamente satisfeitas pelo primeiro «milho de pardais» com que os políticos sustentam as suas actividades.
"Cruzamo-nos uns com os outros, dizemos e ouvimos coisas muito intensas para, num ápice, desaparecer tudo de repente?"
Pode ser, pois a vida é um entreposto, onde se registam as memórias, positivas e negativas, de pessoas que por nós passaram ou de lugares frequentados.
Por outro lado, há aqueles que, dizendo-se maratonistas não passam de corredores de 100 metros, sem fôlego para uma parceria e desistindo antes de saltarem a primeira barreira.
Ao invés, os nossos olhares, por vezes, são iludidos nesse sentido (julgamos maratonistas aquelas que facilmente desistem), pois tudo é relativo, dado que não há pensamentos únicos, nem sentimentos com a mesma medida e intensidade. Tão pouco reagimos da mesma maneira...
A minha "professora" de fotografia... olho para ela como alguém que esteve na minha vida o tempo (relativamente) exacto, e dela partiu com a sensação do dever cumprido. As palavras que me dissera inicialmente, essas, levou-as juntamente com o seu material fotográfico; e da areia do tempo, ou da maresia dessas lembranças, sobram algumas saudades pelo que de melhor conseguiu exibir (e despertar) junto do meu ser.
Lamento o seu orgulho e distanciamento, como lamento a ausência de todas as pessoas que marcaram a minha vida, mas fico (cada vez mais) com a consciência de que, se nos achamos seres únicos, será muito difícil partilharmos projectos de futuro, em especial perante aqueles que dão prevalência a um "carpe diem" consumista e de memória curta.
A sua ausência é mais uma lição de vida, pois não nos devemos iludir com palavras ou com as imagens que nos pretendem transmitir, sem que as mesmas sejam consubstanciadas em actos ou passem pelo crivo do nosso "feeling", na medida em que, também elas, devem ser relativizadas no contexto da nossa própria (e única) existência.
Nesta vida, mesmo para quem a considere que haja ganhos e perdas, é importante saber que até nas perdas se ganha experiência. E que, desse legado, inteligentes como somos, nos vamos preparando, de uma outra (e mais consistente) forma, para as etapas subsequentes. Por maior que possa ser o sofrimento, a sensação de vazio e de solidão.
E quem está em paz consigo mesmo não consegue sentir-se só. Pelo menos deve perceber isso, com um sorriso na face.
"Professora", que subitamente "desapareceste", também por isso te agradeço, não resistindo a dizer (porque se eu próprio não me valorizo quem será que me valorizará?) que, pegando nos ganhos e nas perdas (respectivamente, o castanho entrelaçado ao verde da foto), não fui eu quem mais ficou a perder...
É por isso que a corriola que enlaça o verde do meu ser tornou-se castanha, como as nódoas do mal que me tenhas feito, mas tais manchas jamais conseguiram deturpar o melhor que há em mim... essa eterna inocência e jovialidade que, mesmo sob o disfarce de um sorriso triste, é o meu alento para continuar a caminhada, não importa se sozinho, se acompanhado.
Foto, mote e Título do texto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Nesta vida de ilusão
ninguém pára para pensar
se a solar circulação
é da Terra a girar?!...
Numa escuridão, a sós,
de quem cala o prazer,
Navegarás junto à foz
Em busca dum bem-querer?
Vês o mastro agitado,
muito perto do rochedo?
Mantém-se firme e calado,
escondendo o seu medo?
Afinal não será foz,
antes dor de rocha dura
que, em posição atroz,
descompõe gentil postura.
O teu simples caminhar,
para quem não aprecia,
é incómodo pensar
ou música do Lucia.
Não importa qual o barco
onde despes esse corpo,
se, da noite, fica o marco
que abala o teu porto.
Na encosta perigosa
com risco de fundear,
seja em verso, seja em prosa,
não te deves demorar.
O risco duma carcaça,
fundeada, sem remédio,
parec' homem que se maça
e da vida ganha o tédio.
Não importa a luz brilhante
nem o Sol, tão pouco a nuvem,
nem a vida hesitante:
Na demora há ferrugem...
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Prostrado no cais do tormento,
onde vislumbro o fim da linha,
afogo os sopros do lamento
esperando a onda adivinha.
E quem me dera isolado
em manto de felicidade
com um futuro projectado
e toda a sinceridade.
Nuas ondas, calmas, azuis,
coloridas de ilusão
salgam, incolores, com pus
as feridas dum coração.
Olho, para vocês, iludido
sobre estes ombros de cansaço
por mundo subdesenvolvido
vivendo a carvão e aço.
E da pontinha deste cais
que podia ser do carvão
pouco almejarei mais
que silêncio e solidão.
Quando, outrora, a voz humana,
iludindo-me, empolgaria,
nesta hora, assaz profana,
à mesma lanço anestesia.
Infrutífera ressonância
que não chega ao meu pensar
e nem causa qualquer ânsia
neste meu simples caminhar...
Quero cumprir o objectivo
antes de me lançar às águas
e não será pelo teu crivo,
ou dedo acusador de mágoas.
Perante uma encruzilhada,
entre ficar ou mergulhar,
no reboco da caminhada
um Homem põe-se a pensar.
Pois foram quase vinte anos
de projectos e de tormentas;
e os sonhos foram enganos
servidos entre as ementas...
Alívio! A maresia:
Santuário do pensamento,
onde espalho a poesia
ajudado por esse vento.
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
Queria ser um anjo neste momento...
Um anjo de luz, um anjo bom, um anjo poderoso...
Daqueles que passam fazendo ventania e ventando para longe de seus guardados as tristezas e maldades do mundo...
Caso um anjo eu fosse, jamais faltaria um arco-íris no céu para colorir os caminhos da vida, nem flores perfumadas á cada lágrima rolada da face dos que sofrem...
Se asas eu tivesse, jamais estariam sós aqueles por mim cuidados, e os amigos daqueles por mim cuidados, ou os amados por aqueles por mim cuidados.
Teria asas, voaria para onde precisassem de mim, dos meus cuidados e carinhos, de minha doce cura angelical...
Se me permitisse Deus ser um anjo, daqueles de grandes asas, de sorriso meigo, de olhar penetrante e encorajador, de mãos calmas e precisas, de andar tranquilo e certeiro rumo ao infinito do ser, com grandes e largas asas para à todos acolher, jamais deixaria passar por teu olhar outra nuvem cinza de tristeza ou mágoa...
Não te faltaria um só minuto, estaria sempre lá, te cuidando, te observando, te ajudando, ensinando, te dando a mão nos momentos mais difíceis, te escutando nos momentos de dor, te repreendendo nas horas de egoísmo, e te aplaudindo nos momentos de felicidade total, porque Deus, nosso pai, nos criou para o paraíso, e é lá que devemos fazer força para estar, pois é assim que Ele quer.
Bem, se quiseres uma pessoa meio anjo meio gente estou aqui!
Se quiseres uma amiga meio desconcertada, estou aqui.
Se quiseres um ombro que as vezes necessita tanto do teu , estou aqui.
Se não te incomodares com todos os meus defeitos e minha falta de asas, dá-me tua mão... estarei contigo!
(Claudia Telles)
Dedicado por minha amiga, grande cantora da Bossanova e da MPB, Claudia Telles, a quem deixo "Aquele Abraço".
"Evita o mundo, é só um montão de pó e lixo que afinal não significa nada"
Jack Kerouac
"Para a maioria dos homens, a guerra é o fim da solidão. Para mim, é a solidão infinita"
Albert Camus
"São precisos dois anos para aprender a falar e sessenta para aprender a calar", Ernest Hemingway

Para penetrar no fundo dessa alma
Tenho de passar por todos esses espinhos,
Aos quais dou todo o meu ser, com muita calma,
E submeto-me a deuses e adivinhos.
Assim fora durante os tão verdes anos
em que havia a ilusão de ser feliz.
Soubesse ver, nessa luz, os teus enganos
eu deixara de querer o que antes quis.
Mas a vida é mesmo assim, no compromisso
de quem teima ver em nós gentil verdura
e capacho a quem se dá algum sumiço
quando a hora possa ser de amargura...
Vês o verde e os espinhos que cravejam
este peito, austera flôr, sem piedade?
Pela paz procuro os dias que te vejam
seres a flôr sorrindo com serenidade...
Quotidiano da precipitação,
do escárnio, da inveja e maldizer:
É difícil manter limpo o coração
e a mais pura vontade de viver...
Ver o verde, é, desesperadamente,
a mais pura e humilde obsessão
que assola este espírito doente
tão avesso às guerras e confusão.
Oxalá que o verde te fizesse luz
e que uma andorinha fosse a Primavera.
O que tens, agora, é Pássaro na cruz,
com asas amordaçadas pela fera.
Já não basta a maresia das correntes
nem a luz solar na lua reflectida
sinto um mundo que ofusca estas lentes
e desejo ver-me numa de partida...
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Há o dia de embarcar
na barca do sonho em vão,
a qual mostra o naufragar
após anos de ilusão.
Verdes anos, verd' enganos:
A escola deseducou;
não se entendeu nos planos
e teu futuro lesou.
Vêm agora, com "Bolonha",
iludir, em tom satírico.
São políticos com ronha,
mas saloieza de espírito.
Deste ponto litoral
eu, que vi o desalento,
vejo morrer Portugal
num globalizado tempo.
Mar amigo, companheiro,
esta vida é uma luta:
Uns são filhos do dinheiro;
Outros são filhos-da-puta!
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante

Nesse sal de azul intenso
Vejo a onda a enrolar,
Com ausência de bom-senso,
Umas rochas junto ao mar.
Enrola em empreitada
As mais simples criaturas
Por quem são apaixonadas
Até tempo de rupturas.
Mar dum azul imperfeito,
Tal qual amor poluído
Por um sonho mal desfeito,
Recordado e repetido.
Ondulação insistente
Que não te perdoa uma
Distracção, simples, somente:
Dessa "tampa" salta espuma!
E de tanto "cravar ferro"
Nos confins de frágil mente,
Há o dia em que o berro
Sai espontaneamente.
Do mesmo jeito que vês
A maré a aprisionar,
Sem delongas, ou porquês,
Há o dia de embarcar…
Nem o mais forte blindado,
Ou barco, tipo anfíbio,
Te mantém aprisionado,
Com correntes nessa tíbio.
Qual furacão transversal,
Esse vento enrolado
Duma água marginal
Que afunda o teu estado.
E se pensas que é "bluff",
Um amor independente,
Vê a prancha deste surf
Contornando o presente.
Mar amigo, traiçoeiro,
Que se esconde numas poças,
Traído pelo seu cheiro
Cujo som talvez não ouças.
Não se escolhe um grande amor
Nem se prende uma paixão,
Por maior que seja a dor
Para um triste coração.
Fotografia: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante