
O clarão repercutido
Nesse sal de azul intenso
é um olhar reflectido
no teu ser, ao qual pertenço...
A brisa que aconchega
o calor de um tal olhar
desconsolado, diz: "chega
de ver lágrimas ao mar!"
Se o Sol segue o seu trilho
e bafeja a enseada,
Não consigo ter o brilho
que sustente a madrugada...
Nem o calor do rochedo
que o dia acumulou
exorcizará meu medo
dum amor que se magoou...
Cala a voz, intermitente
como a dança das marés,
meu amor, ora doente:
quer um Pássaro a seus pés?...
E, tal como a maresia
que lhe esbofeteia a face,
as estrofes desta poesia
serão um profundo impasse...
O presente é agonia
em que o brilho escurece
e nem serve a melodia
da "Lisboa Que Amanhece".
Quando o Sol se põe em Sidney
Mostra a face sobre o Tejo.
Sobre o rio voarei
à procura do teu beijo...
Para um grande amor ausente,
abrilhantando Madrid:
Neste "solo de água quente",
a saudade reflecti.
Saudade e apreensão:
Agonia de um viver
maltratando o coração
com medo de te perder.
A Lua por companheira,
Que a Deusa habituou,
nesta Ilha da Madeira:
É um sonho que ficou.
Levou o melhor de mim,
enlaçou-me com atilho...
como o Sol, que parte assim:
O Sol seguindo o seu trilho...
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
Cansado de mais um dia,
em que nos deu o seu brilho,
agora, em sobranceria,
o sol segue o seu trilho.

E segue em desalento
depois de tanto calor,
tal e qual o meu tormento
por não te ver, meu Amor.
Muitas horas de degredo
que as estrelas acentuam.
É, distância, forte medo:
As certezas desaguam?
Meu caminho é desassombro
com a tua claridade,
sem a qual a vida é escombro,
ou reduto de cidade.
Não demores, meu amor,
a Deusa olha por ti
nem comentes, por favor,
os lamentos que senti.
Volta logo, sem demora
sob a luz do meu farol,
tão depressa como a hora
de mais um nascer do sol.
Na esperança, renovada,
de te ver, mulher, Maria,
suporto a madrugada
até ao romper do dia.
E como quem se agiganta
face ao sol que vai nascer
afino alm' e garganta
no desejo de te ver.
Por isso, o pôr-do-sol
será um mero detalhe,
ou incómodo anzol
a um amor que não falhe.
Foto e título do texto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
Mergulho sobre a espuma
De um mar incoerente
Cujas ondas sobre a bruma
Consolam a areia quente.
Ao ritmo de um bolero
Sob um sol amordaçado
Pela nuvem que diz: “quero
Esvair-me de pecado!”
Nesse pôr dum sol se põe
A luz ténue e nua
Que, ao vento, bem compõe
Uma louca ode à Lua.
Cravejando a madrugada
Envolta de excitação
Essa luz, duma assentada,
Faz da areia um colchão.
Insinua ousadia
Junto do seu bem-querer
E, dançando alegria,
Descontrola de prazer!
Encharcado na penumbra
E louco de excitação
No seu corpo se afunda
Com total satisfação!
Os esguichos aleitados
Inundaram de amor
Tais corpos abençoados
Pela Deusa superior.
No regresso partilhando
A maciez da areia
Namorados por mar brando
Sob olhar da lua cheia:
A mulher, de alma quente
E olhar de luz de fogo,
Saciada, simplesmente,
Dá por findo o seu jogo.
Do consolo de um ilhéu,
Por quem é apaixonada,
Recebeu bênção do céu
E partiu consolidada.
Texto e Fotos: Pássaro Distante, 20.07.2007
Colocas os teus dedos numa posição violinista,
amparando, ao de leve, o teu seio,
com a delicadeza de uma artista.
Encontras no guarda-sol o brilho que ampara
a brancura, que se mostra e esconde,
mas que esta objectiva repara.
E pára.
Aguardas que pouse em ti,
na pérola da retaguarda
e vergada ao sol, que sorri.
Vês no mar a testemunha
e na areia o exemplo
quando ele, por trás, se punha.
E espuma. Ai, a espuma...
Com a fúria do vento
o mar na areia se pôs...
Fez espuma, naquele momento,
e teu corpo, relaxado, se recompôs.
E depois...
Só nós dois...
Texto e fotos: Pássaro Distante
Atravessas, paulatinamente, a longa extensão de areia, com a qual estás em sintonia, para saudar o mar...
Acordando preguiçosamente, devido à sedutora acção de um vento suave, e que, também, acaricia o teu rosto camuflado, o mar desejava sentir esse corpo salpicado de maresia, como se fosse uma hóstia face à qual ele estivesse ansioso por comungar...
Com a benção do próprio areal...
Texto e fotos: Pássaro Distante

És branca como uma virgem ávida por florescer no vale de uns lençóis de sonho, contendo o fulgor dessas pétalas, como quem contém, anos e anos, o indómito acto de se dedicar, loucamente, a alguém.
Permaneces imóvel e não deixas que te retirem o pólen, como quem aguardasse pela sua alma gémea, aquela a quem vale, efectivamente, a pena entregar-se sem reservas, ou limites.
Imóvel... mas atenta ao passar dos anos e aprendendo com os erros de suas irmãs, que se entregaram às primeiras marés, ilusórias e efémeras, com promessas de alvíssaras entretanto esquecidas, como uma vela que se apagara num quarto de categoria duvidosa.
Imóvel... mas serena, não obstante a tendência colectiva de entender que o passar dos anos rapidamente torna qualquer sonho não realizado num pesadelo sempre recordado ao som de um triste fado.
Imóvel... apesar das lambadas que o vento recorda, sucessiva e diariamente, como quem diz, enganado, que mais vale ser uma "ovelha ranhosa" dentro do rebanho, do que uma "ovelha negra", fora dele. Pois, nem sempre a maioria tem a razão de que subjaz a força dos números.
Imóvel... como quem convalesça, paulatinamente, de um acidente, do qual tenhas saído ilesa por mão divina, certamente rendida à importância da tua vida repercutida num meio cinzento, monótono, egoísta e solitário. E seguramente rendida à importância que tens, e terás, na vida de um Pássaro.
Virgem, branca, imóvel, única.
Paradigma de virtude, que não se ilude com as luzes da cidade ou do estrelato. Afinal, o teu brilho é mais intenso, porque verdadeiro. Natural e não artificial...
Pousar em ti seria um crime, que nem o mais livre Pássaro ousaria cometer.
Enquanto não abrires, voluntariamente, as pétalas, e mostrares, ao teu eleito, o interior dessa alma, de que a imagem, partilhada, aos demais olhares será pequena ponta de um iceberg de riqueza imaterial, aguardarei, com a serenidade de uma inquietude camuflada pelas penas que me revestem, pelo dia da reunião.
És branca como a lua. E, por vezes, até confundes este Pássaro, que fica sem saber se tal brilho lunar derivará do sol ou, simplesmente, da tua própria brancura. Por amor, a escolha será óbvia...
Escrever-te em prosa, abdicando do verso, é a melhor, e mais singela, homenagem que poderia fazer a alguém como tu: única, intensa, clara, brilhante, verdadeira, especial... em suma, "primus inter pares".
Voar em teu redor, em pensamentos, palavras, e dos confins do meu próprio olhar, é uma forma, particular e intransmissível, de oração eterna.
Estares longe de mim, como diria o poeta, "é um pedaço de alma arrancado sem piedade"...
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
I
Invoco-Te, Deusa Celta,
Mãe da minha alma gémea,
neste momento enferma
devido a quase tragédia.
Invoco-Te, Deusa minha,
"minha", com propriedade,
pois, graças à tua Filha,
converti-me de verdade.
Dar-me a Ti, a ela devo.
Por isso, rogo por ela,
como se as letras que escrevo
fossem tons de aguarela.
A Ti se deve o encontro,
Por Ti não mais somos sós.
Deusa Celta, neste ponto,
de que valerão Teus "nós"?
II
O meu bem-querer enfermo
por tão vil fatalidade
que agravou este ser, ermo
de tristeza e de saudade.
Deusa Celta: Ouvi minha
frágil prece que acusa
forte choro que se alinha
ao sofrer da minha Musa.

Não bastasse esta distância
que agrava a situação,
Tenha dó da minha ânsia
que vergasta um coração.
Protegei minha menina
que não merece sofrer.
Sua alma, feminina,
muito tem para viver.
Minha Deusa, Deusa celta,
toda a minha poesia
é devido à alma esbelta
que me conquistou um dia.
Ajoelho em chão sagrado
e rezo por minha Musa.
Ponho em ti, fragilizado,
meu destino de alma lusa...


Deposito estas flores
em redor do Vosso altar
Para que Cureis as dores
e Devolveis-lhe o bem-estar.
III
E se tal seja preciso,
o meu ser sacrificar,
por Amor perco o juízo:
ofertando o respirar.

Tal como a cera das velas,
fogem deste meu olhar
transparências singelas
que não posso evitar.

Com a face já enxuta,
depois de muitas escorrer,
dou ao sono intensa luta,
aguardando o Sol nascer.
Numa rua solitária,
em silêncios de ruídos,
em qual penitenciária
flagelando os ouvidos:
Esotérico, percorro,
com a cruz, a sacra-via,
preferindo dizer: "morro!
A tirarem-me Maria".

(Prece do Pássaro Distante)

Deste brilho que irradias,
ou celestial brancura,
teus fiapos de ternura
iluminam os meus dias.
Ao redor o mar castanho
de terra mal disfarçada,
por cimento encurralada,
não importa o tamanho.
A todos indiferente,
em singular posição:
distinta, fatalmente.
Quem te quer possuidor
ganhará desilusão:
não se prende um amor.
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
Quisera amar-te só pelo que és
e não por tudo aquilo que mostras.
Quisera sentar-me em redor dos teus pés
e afagar teus cabelos e costas.

Quisera rever-te todo o belo dia
e banhar-te de musicalidade,
ou consolar-te em sentida poesia,
enfim, criar o nosso mundo à parte.
Mas este meio em que nós vivemos,
de um interior oco, ou opaco,
implacável, sentencia: perdemos!
E de tudo aquilo que fomos, e somos,
não encontrámos coragem, ou tacto,
de escrever, juntos, a vida, em tomos.
(Resposta à dedicatória de Doce Maior, no post abaixo, denominado "Doce Primavera")

Qual pétala que se alarga
para o ventre confortar
inesperada chegada:
O pólen da gravidez
exalará teu bem amar,
feliz, ao nono mês.
Bela flor, tão dilatada,
quieta numa morada,
asilo para teu amante,
que se encontra exilado,
e do teu peito arredado
porque o quiseste distante.
Num secreto sentimento
estas lágrimas de vento
penalizam meu olhar.
Despido de quaisquer vestes,
refugio-me nas preces
que a alma sabe lembrar.
Amarei também teu filho
e seguirei o seu trilho
como se ambos fossem meus.
Porque te amo, minha Lua
que, de dia, és linda e nua:
és a promessa de Deus!
Flôr que não semearei -
estando arredado, eu sei...
Mas serás centro do mundo.
Tudo o que seja gerado
pelo teu ser, bem amado,
também será meu, profundo.
Muito bela, terna flôr
que um dia conheci,
segredando o teu amor:
Posso estar na solidão,
e esperar-te, até, em vão,
mas sei o que sou para ti.
Foto: Chris Ramos, in Olhares:
http://olhares.aeiou.pt/galerias/detalhe_foto.php?id=1344687&redir=1
Texto: Pássaro Distante
Doce Primavera

Quisera amar-te só por tuas flores
sem pensamento nos futuros pomos,
mas a realidade vil que somos
não se contenta apenas com amores.
Quisera receber-te como noivo,
o sempre verde deus de esmeralda,
mas a época atual é um goiva
que decepa, ao nascer, minha grinalda.
Muito embora o benigno nosso inverno
pouco nos roube o verde da folhagem,
o viço do que brota é sempre terno.
Mas nos trópicos punge uma surpresa:
a nossa primavera é uma imagem
mais da cultura que da natureza.
(Dedicado ao Pássaro Distante, em 05/11/2005)
INTOCÁVEIS
©Jade Dantas
Escorrego nas palavras,
na densidade com que elas me provocam
e calo (com medo do delírio).
Falo das palavras que me escondem.
Falo dos sonhos e dos segredos
intocáveis. Falo do refúgio úmido
onde te anseio. Do meu lado selvagem.
Falo da poesia da tua voz ao meu ouvido
e escorrego nas palavras. Falo de ti.

(Jade Dantas, poetisa e amiga do Pássaro Distante, que foi homenageado com esta linda poesia).
Por caminhos sinuosos
Apesar de olhar o mar,
E momentos tortuosos
Que afectam teu bem-estar,
Vou escalando esta montanha
Sob efeito violeta
E alguma artimanha
D’ alguém que toque a sineta.

Somos cabras do rebanho
E bodes de mau pastor
Ávido dos seus bons banhos
Impregnados de rancor.
Por entre essas pedras soltas
Circulam as falsidades
Que fazem orelhas moucas
Às nossas fragilidades.
Mar azul da aparência
Em que espelho te revês?
No céu da clarividência
Ou na cama do marquês?
Somos carne para canhão,
No leito desses doutores
Que, da vil governação,
Não distinguem os pudores.
Nos caminhos proibidos
Por varões irregulares
De madeira, são sortidos
Os pruridos dos teus pares.
Quem, outrora bestial
Por fazer aquele favor,
É jogado ao matagal
Sem clemência, nem pudor.
Eis aqui, no precipício,
Postergado de razão,
Quem cultivou frágil vício
E caiu na tentação.
No momento, duma hora
Em que o Sol não vai nascer
É julgado, sem demora:
Condenado a morrer!
Foto: Chris Ramos
Texto: Pássaro Distante
O vermelho escaldante desta flor
atiça o cálice da minha oração:
Das pequenas coisas que, por amor,
completam, e queimam, a nossa paixão.

Pousarei na aura do teu pólen
sob um ímpeto transcendental,
ousado e autorizado,
que te traga a Portugal.
De cada pétala: portador
da mais singela comunhão,
ou brilho ardente duma flor
que perpassou um coração.
Por isso rezo, no ensejo
de trazer-te ao meu trilho
que se estende sobre o Tejo,
sob a Lua e seu brilho.
Guardarei esta quimera
como quem cala desgosto
e pensando: "quem me dera
encontrar-te em Agosto"...
Flor que brilha muito mais
sob a dádiva divina
e que torna, no meu cais,
qualquer água "c(h)rist(al)ina".
(homenagem à autora da foto)
Para as pequenas coisas olharei
sob o signo do vermelho intenso,
como um súbdito da Deusa, ou Rei,
impregnada de incenso.
Cheiro e almas se confundem
enquanto seus corpos dançam
e as carícias se fundem
sob olhares que se entrelaçam.
Do rosto desse vermelho
acerbado de ilusão
morrerei, se puder, velho
preenchido de emoção.
Eterna flor, eterno amor,
eterno brilho de emoção...
Serei eterno pecador
munido desta oração.
No reverso desta vida,
como quem olha para trás,
não lamento cada ferida
que me trouxe ao teu cais.
Olharei, pois, para as pequenas coisas
com o brilho de querer viver
nesse intenso vermelho, em que não ouças
o meu real medo de te perder.
Fotografia: Christina, Chris, Ramos
Texto: Pássaro Distante

Olharei para as pequenas coisas
como quem olha para a alma
e delas retirarei o pólen
que me dá a calma.
Olharei para as pequenas coisas
como quem olha por mim
e vê no meu triste ser
um horizonte sem fim.
Olharei para as pequenas coisas
como quem olha para o mar
e pede à Virgem marítima
que traga o teu bem amar.
Olharei para as pequenas coisas
como quem olha por ti
e te tranquiliza, segundo a segundo,
como se estivesses aqui.
Olharei para as pequenas coisas
como quem olha por nós
E pede à Deusa Wicanna
apoio nos momentos a sós.
Olharei para as pequenas coisas
como quem nada tem a temer
e que barafusta com o vento
quando cala algum teu dizer.
Olharei para as pequenas coisas
como quem crê no seu amanhã
coberto de um verde incerto,
acarinhado em simples divã.
Olharei para as pequenas coisas
como um quase-santo protector
que rejeita a violência gratuita
em nome de um falso amor!

Venho aqui “picar o ponto”
Nesta jorna tão florida.
O teu pólen está “no ponto”
E eu cá estou de partida.
Já não sei se volto aqui,
Se me prendem na colmeia.
Se disserem que parti:
É que me armaram a teia?
Não sou livre; quero voar
Desta vida de cinzento.
Saberei onde encontrar
Nesse pólen meu alento?
[Parceria Chris (fotografia)/Pássaro Distante (versos)]