
Num cruzeiro, neste mar de simples vida,
Não prometo maravilhas ao teu pé.
Cada dia pode ser a despedida,
Pois ignoro qual o tipo de maré.
Águas brandas, agitadas, ou meio-termo,
Oscilando, quais ondas de inquietação,
Condenando qualquer gruta, ou palco ermo,
A esvair a bolsa de respiração.
Outros barcos ameaçam nossa nau
Dos confins dos sete mares avisados
Atracando junto de qualquer calhau
Quando sabem poder ser abalroados.
Eu queria inundar-te, gota a gota,
Com magia de alegria de viver,
Consolar-te, na calma de Maragota,
E amar-te até ver o Sol nascer.

Desejava retirar o olhar triste
Que perfura o tambor do meu semblante
E mostrar-te como é que se resiste
A um mundo que tem pouco de excitante.
Pretendia abraçar-te sem demora,
Aninhar-te num consolo musical.
Dizer o que já só tem espaço cá fora,
Dirigido a quem seja especial.
Se pudesse transformar em perfeição
Desde os gestos ao mais simples suspirar
Calaria toda a precipitação
Que impede as pessoas de amar.
Eu queria acender-te o meu pavio
Quando o corredor da vida fica estreito
Em que tudo nos parece como um fio
Bem atado por um polvo rarefeito.
Naufragando entre sonhos e terror
Dum cinzento, que tem nome de presente,
Só lamento que não vejas no amor
A expressão de uma alma independente.
As mulheres querem homens controlados,
Quando, outrora, eram elas dominadas.
Mesmo os sonhos devem ser tão bem atados
Como olhares e conversas programadas.
Nessa ânsia de cortar minha raiz,
Desespero de incontida obsessão,
Vira fêmea, ou ignóbil meretriz,
Sujeitando-se a cada ocasião.

Neste, tolo, mundo superficial,
Em que nada acontece sem querer,
Não se entende quem não seja nosso igual
E não pense apenas nesse verbo: “ter”.
E por isso, meu amigo: acredita,
Num trajecto, revelando desencanto,
Mostro a alma de um mero eremita
Escondida no mais puro e simples canto.


O dia do casamento de uma filha é tão importante como o dia do seu nascimento, pelos motivos mais semelhantes… e mais díspares também.
Minha amiga Doce Maior tem uma filha que se casa precisamente neste dia, pelo que, mesmo distante, não poderia deixar de me associar ao evento, deixando expressos os votos das maiores felicidades.
Um grande abraço, lusitano, do Pássaro Distante.

Ao ritmo de uma aula de ginástica, vestindo uma roupa preta ajustada às delicadas curvas de seu corpo, uma ex-Miss, de olhar felino, libertava a seu elegância contagiante.
De repente, cruza o seu olhar com ser oposto, com quem alterna a atenção prestada aos exercícios, directamente ou por um jogo de espelhos que as paredes de vidro daquela sala de aula proporcionavam.
A aula transformara-se, inusitadamente, para os dois, num espectáculo de discreta sensualidade, como se ela soubesse que tinha um espectador atento, e exclusivo, a quem desejava, sem saber bem porquê, exibir todo o seu esplendor físico e elegância corporal.
A forma como baixava e levantava sucessivamente o seu corpo, hirta, como se tivesse (ou desejasse ter) alguém deitado em seu redor, era uma imagem absolutamente fantástica e indelével.
No seu olhar, aquele que ninguém nota, estava alguém que conseguia sentir-se perfeitamente saciado, na alma… e no corpo, e sem qualquer contacto físico. Dando razão àqueles que dizem que por muito menos se faz amor…
Na troca de olhares escondem-se ou revelam-se desejos. A “química” é uma faísca que surge do nada. E do minimalismo deste “livre arbítrio”, que melhor palco haverá para a criatividade e para a imaginação?
Talvez o espectador jamais regresse ao “local do crime” em que se transformara aquela envidraçada sala de aula… mas isso não é o mais importante. Fundamental é ter a capacidade para, como se em busca do próprio equilíbrio e talvez mesmo sem razão aparente, poder viajar “entre dois mundos”, obtendo o oxigénio "purificado" que permita encarar cada espaço e tempo concretos com razões acrescidas para desejar (continuar a) viver.
A elegante Miss dera-lhe mais uma…
Daí esta singela homenagem. Quanto mais não seja para que não passe esta vida sem saber o que a sua presença numa aula de ginástica pode causar…