Não me leias com olhar apaixonado,
Como crente deste meu perfil, incerto,
Iludido por miragens de passado
Que, teimosamente, trazes para perto.
Não me leias com teus olhos de criança,
Nos quais vês em mim o mais perfeito herói
Invadindo os teus sonhos dando esperança,
Qual “castelo de papel” que se destrói.
Não me leias com a dádiva divina
Que absorve por completo o meu ser
E retira duma forma cristalina
Esta ausência ou vontade de morrer.
Não me leias com esse jeito de musa
Que se afaga no carinho dos meus versos
Nem me tentes com um olhar que seduza
Sentimentos escondidos ou submersos.
Não me leias com o teu fulgor carente
Que se espalha por essa inquietação
Revelada num nervoso persistente
Massacrando o teu belo coração.
Não me leias com um segundo sentido
Porque às vezes há total insensatez
Nas palavras do meu tempo já vivido
E daquele que só espera a sua vez.
Não me leias com o caos do meu costume
Absorvido por um andar desleixado,
Enjoando ao sabor dum tal perfume
Entornado num corpo contrariado.
Não me leias com os acordes dum fado
Cujas notas mudas são composição
De silêncio e de vento esquartejado
Pela noite da ausência de pregão.
Não me leias com o teu desassossego
Espalhado na travessa da saudade
À procura de singelo aconchego
Para o qual a solidão não tem idade.
Não me leias com o teu olhar danado
Sempre pronta para a mais leve cobrança.
Ou não vês este semblante, já cansado,
Trespassado com a ponta duma lança?
Não me leias como dona do destino
Que procura a brutal satisfação
E controla, com um caminhar felino,
Cada gesto meu, visto como invasão.
Não me leias com a dose de censura,
Como quem não gosta daquilo que lê…
Só porque o teu “remédio” não é cura
E ainda está na “fase do porquê”.
Não me leias “certa das tuas certezas”
De quem pode, quer e manda à vontade.
Já estou farto de amparar as “realezas”
Que não querem ver no espelho a verdade.
Não me leias com o teu olhar altivo
Que disfarça tudo com indiferença
E que faz da servidão lugar cativo
Onde aflua todo o tipo de doença.
Não me leias com o teu olhar magoado
Como um rio simplesmente poluído
Respirando ao sabor do meu pecado,
Praguejando por que houvera nascido.
Não me leias com as sombras do encanto,
Da quimera e da sua companheira.
É que talvez possa causar certo espanto
Se souberes como é minha maneira…
Não me leias, simplesmente, não me leias
Nem te prendas no melhor que há em mim.
Estou preso nas rotinas e nas teias,
Desgastado por levar a vida assim.