O meu corpo é como as pedras da calçada:
Silenciam sua dor à caminhada
De qualquer transeunte indiferente.
Estão gastas, sujas, tristes e pesadas,
Nem se incluem nas paisagens ordenadas
Pelos ventos de teor intermitente.
Água suja escorrendo no vazio
Das pedras, pressentindo o calafrio
Sem saber onde irá desaguar.
Pedras são, assim tão sujas mas banhadas,
Assistindo a intensas alvoradas
Aleitando o mais pesado caminhar.
Na fobia do andar dos caminhantes,
Ou a passos mais ou menos hesitantes,
És a via simplesmente ignorada.
Se tu sofres já não serves de guarida
A quem via em ti o mote para a vida
E agora vê defunta (des)calçada…
Na calçada não existem mais canteiros;
Não há flores nem, tão-pouco, jardineiros
Só Senhores, quão seguros do destino.
Seu olhar empertigado e egoísta,
Ostentando um troféu duma conquista,
Açambarca até o som do próprio sino.
O meu corpo é como a pedra da calçada:
De voz rouca e postura indignada
Quando a cinza predomina no basalto.
Muitas vezes sente o peso dos pneus
- E pergunta se é castigo de Deus -
Dos mil carros que transbordam do asfalto.
Na calçada desaguam desamores,
Negras mágoas de constantes dissabores,
Circulando em ritmo desalinhado.
Desconhecem o perfume da calçada,
O seu brilho, já em plena madrugada,
E seu canto, sopro triste, como um Fado.
Faleceu Eugénio de Andrade, esta madrugada... A literatura portuguesa volta a estar de luto.
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade