As palavras estão mortas e o coração secou.
Fiz das letras sujas cinzas que teu peito aspirou.
O meu corpo tão inerte, de onde as lágrimas escorrem,
É um porto ou cativeiro de velas que as absorvem.
Minha vida é cansaço, vulgo penoso retiro,
Escondido no regaço cada vez que te suspiro.
Neste quintal sem fronteira, onde a terra é o cimento,
O ar puro é sujeira; e o dinheiro: argumento.
Não fechamos a janela, por causa de asfixia,
Nem damos à manivela para ver a luz do dia.
Faço da noite o refúgio para poder sobreviver
E do escuro o meu búzio para ouvir meu bem-querer.
Não levanto os cortinados devido às alergias
Dos vis moços de recados que atormentam nossos dias.
Guardo na luz da garganta forte grito por Justiça:
Prisioneira (quem se espanta?) em fria cavalariça.
Sustentando o teu vício e pagando o meu imposto
Vou levando este suplício e calando o meu desgosto.
Já não estou à tua beira nem, tão pouco, sou paquete
Dessa tua baboseira e sorriso de falsete.
Largo as velas escancaradas de veleiro sem rotina
E navego “às três pancadas” até molhar a retina.
No silêncio deixo o escrito das sílabas que queimei:
Na garganta fica o grito que eu, um dia, amordacei.
Vou regar todas as flores antes de dizer adeus,
Imolar-me nos sabores que roubei dos lábios teus.
E assim, já derretido, desprovido de corrente,
Deixo cinzas sem abrigo, sem um corpo e sem mente.
I
Indo à “Rua dos Ausentes”
Encontrei os imprudentes
Numa casa abandonada…
Faziam uma vigília
E bebiam chá de tília
Com uma moça magoada.
A mulher, de forma airosa,
Escondia numa prosa
As marcas do seu lamento,
Derramadas do seu pranto,
E deslizavam num manto
Embaladas pelo vento.
Ref.
Lá vai a mulher bonita
Que acredita,
Por isso espera.
Dia e noite retarda,
Até que arda,
Uma quimera.
Quando não vê mais presente,
A razão do seu apuro,
Abandona, tão consciente,
A Rua, saltando o muro.
II
As lágrimas que largava,
Que o tempo não apagava,
E connosco partilhou,
Das quais era remetente
Alguém que estava ausente
E que a abandonou.
Homem de passo ligeiro,
De sorriso sorrateiro
E jeito de enlouquecer:
Numa vez queria amar,
Noutra quis abandonar
O amor que viu nascer.
III
Esse amor com gosto ingrato
Invisível no retrato
Que, a todos nós, exibia…
Fora deixado na Rua,
Mal vira o brilho da lua
Esvair-se com o dia.
Nessa Rua enjeitada
Escondeu-se, amargurada,
De qualquer raio de luz…
Depois esperou pela hora
Para sair, porta fora,
Carregando a sua cruz.
IV
Esse corpo cravejado
De lembranças do passado
Dificilmente fugia
Do calor duma lareira
Queimando à sua beira
Toda essa melancolia.
Mas, mesmo quase sem forças
E pisando aquelas poças
Escondidas pelo escuro,
Fosse com roupa ou nua
Tinha que deixar a Rua
Para enfrentar o futuro.
(ao som de "Rosa da Madragoa", interpretada há muitos anos atrás por Rodrigo, in «O Charme do Fado»)
Com a generosidade que a caracteriza, Doce Maior (http://docemaior.zip.net/) homenageou recentemente o Pássaro Distante.
Confira tal homenagem copiando este endereço e nova sede do Clube das Lindas: http://docemaior.zip.net/
O meu obrigado, uma vez mais, e um abraço para você, cara Doce Maior.
I
Fiel ao meu andar descompassado
Encontro-te, ao acaso, pela rua,
Carente e de olhar mal disfarçado
Rogando que te faça mulher, nua…
Na esquina desse teu olhar incerto
Envolto de vontade e de receio,
Resgato o teu corpo para perto
E, juntos, afastamo-nos do meio.
O grande descampado era a foz
Do rio onde meu peito desagua
E, misturado ao sal do mar de nós,
Fervia em ti orgasmo que flutua...
Meus lábios sugam no teu belo seio
Enquanto esse porto é alagado.
Escondemo-nos num campo de centeio,
Na fúria dum desejo incontrolado.
No feno estão as marcas da vontade
Gemendo pelo céu da tua boca
Malvada! E sem ponta de humildade
Na língua induzida por voz rouca.
O êxtase contido num fonema
Duma actriz, excitada, me acordara:
Sonhara, numa sala de cinema,
Um filme que com este se cruzara.
E de semblante, ainda, atordoado
Retomei meus trajectos conscientes.
Mas mesmo num andar descompassado
Sabia-te na “Rua dos Ausentes”…
II
Olhar para mim é tarefa penosa,
Tal qual uma folha de papel branco:
Rejeita quer o verso quer a prosa
E se tivesse linhas punha um tranco.
O mar azul sacode o céu cinzento
E puxa a maresia encolhida,
Que se recusa a abraçar o vento
Da Rua onde se encontra perdida.
Na “Rua dos Ausentes” pernoitaram
O Bom-humor, o Riso e a Saudade:
Cansados de viver enregelaram
No frio que perpassa a cidade…
Do frio que fustiga esta cidade
Eu fui bater à “Rua dos Ausentes”
E encontrei, deitada, a Liberdade:
Mendiga, violada e, já, sem dentes…
III
Carente, fatigada, ainda ouviu
Insultos à sua integridade
De gente má que explora a sangue frio
E mancha de sangue a luz da cidade.
Pediu, desconsolada, um cobertor
Para quando faltar a luz do dia:
Previra a vinda do seu amor,
Aquela a quem chamam Democracia.
Decerto chegaria sem vestido,
Rasgado por gentalha sem decoro,
Com tiques de poder tão corrompido
Servido em letras de desaforo.
A gémea fora expulsa da cidade
Mas, ora, sendo sempre acompanhada,
Por gentalha sem legitimidade,
À “Rua dos Ausentes”: conspurcada!
À Rua dos Ausentes já chegou
A prima delas, de nome: Virtude.
As «passas do Algarve» já passou,
Cansada de aturar gente tão rude.
A “Rua dos Ausentes” foi-se enchendo
De gente que amara a Liberdade
Em cujo mar de sonhos foi perdendo,
Até, a sua própria sanidade.
Já não se via o rosto da calçada
Erguida pela “Rua dos Ausentes”.
A Solidão fizera uma jornada,
Trazendo atrás de si as suas gentes:
De calças curtas e com pés descalços,
Seu rosto, cravejado de tristeza,
Desmascarava todos os percalços
Vividos pela sua natureza.
A Rua sentiu falta do sossego
Dos tempos em que a ausência se notava
E em que a palavra Desemprego
Nunca, mesmo invocada, assustava.
IV
Não quero partilhar a minha “Rua”
Com gente que chafurda no cimento,
E que, ávida de espaço, chama a grua
Para acabar serviço violento.
Ausência: és a minha identidade
Enquanto o Sol não crescer ao contrário,
Queimando tamanha banalidade
De quem apenas cumpra calendário.
Por isso chegam cá os iludidos
Assim que se apercebem da tormenta
Que é viver em planos confundidos:
Presente sem futuro: quem aguenta?
Na “Rua dos Ausentes” chora o verso
Cansado de tamanha prepotência
Pois vê, encapuzado ou submerso,
O poder ignorando a ciência.
Mas os que se dizem desenvolvidos
E esgotam os recursos desta Terra
Não sabem que vivem tão mal nutridos
E são “carne” para os canhões da guerra!
A Editora AG (Arnaldo Giraldo) promoveu o XV Concurso Literário Internacional de Verão nas modalidades de Poesia, Conto e Crónica.
Dos 51 participantes, este Pássaro Distante, com o poema "Sonhado Mundo Ileso" (aqui postado a 14 de Janeiro de 2005) obteve, o primeiro lugar, "ex-aequo", conforme a lista que foi organizada de acordo com o e-mail remetido recentemente pelo próprio Editor Arnaldo Giraldo:
O próximo passo será a edição de um livro com os trabalhos que se apresentaram a concurso.
Segue agora o poema premiado (para quem não se recorda ou não teve a oportunidade de ler):
Sonhado Mundo Ileso
I - Quotidiano
Libertei-me de todos os compromissos
Que nos fazem sentir aves tão banais,
E preenchem nossas faces sem sorrisos
Condenando os desejos especiais.
Transmiti-te meus créditos amorosos
Que guardava na gaveta do meu peito,
Mesmo aqueles, outrora tão saborosos,
Mas desenquadrados de qualquer conceito.
Tudo o que de bom tivesse era vazio,
(Pouco havia que pudesse cativar)
Como se um permanente calafrio
Me deixasse sem sorrir e sem sonhar.
Vida fora, vida dura, vida gasta,
Sem sentido, aos olhos da sã loucura.
Cada gesto tinha o peso da vergasta:
Chibatadas de sociedade impura.
Isolei-me das vergastas confundindo
Os meus sonhos com rombos de lucidez
E em cada dor de alma fui sorrindo,
Aguardando por começar outra vez.
Quando o nada dominava o empírico
Veio a luz no fim do fundo da caverna.
Vi o mar derrotado por teu espírito,
Tua forma de combate muito terna.
A mão esquerda enlaçada na direita:
Juntam forças numa mesma direcção.
Nessa estrada, ora larga ora estreita,
Não há nada perturbando a comunhão.
A distância fez a cama da grandeza,
A tristeza molhou o vale dos lençóis.
Mas na rua em que vi tua natureza
Brilham estrelas aquecidas por dois sóis.
No meu corpo não havia já ferida
Que teimasse por não estar tão bem sarada,
Impedindo Santana de Parnaíba
De tornar-se na penúltima morada.
II - Viagem
Fui contigo, de cabelo desvairado,
Ondulado, tal e qual os meus humores.
O semblante muito menos carregado
E na mala tuas predilectas flores.
O teu corpo, antes distante paisagem
Brilhando em longínqua avenida,
Transportou, numa titânica coragem,
Um oásis eleito o mar da vida.
Voei livre, em redor do teu jardim.
Meu gorjeio respirava a poesia,
O teu bálsamo era uma flor de jasmim
Encharcando minhas penas de alegria.
E sem qualquer mordaça ou algum peso,
Condição “sine qua non” para ser feliz,
Mergulhámos no sonhado mundo ileso
E criámos nossa imortal raiz...
Ser feliz… e nada mais era preciso…
Nossas “guerras” tinham outro paladar:
Preenchidas no amor e no sorriso,
Nas doçuras e carinhos sem cessar.
Ser feliz… e nada mais faz diferença…
O presente com a distância na lembrança:
Quando o sonho reflectia uma crença
E a tristeza camuflava a esperança.
Ser feliz… é tudo o que podemos ser
Se olharmos para o que é essencial…
É que basta duma vida a sofrer
E um dia atrás do outro, sempre igual.
III - Lembrança…
A saudade de ser muito bem tratado
E amado por uma doce rainha
De olhar meigo e muito apaixonado:
Nessa noite senti mesmo que eras minha!
Numa mesa que saudou a nossa dança,
Cujas velas eram torres de marfim,
Abracei-te, ofertando minha herança:
Meu piano, meu amor, meu bandolim…
Nossos olhos confirmavam as faíscas
Lançadas pelos espíritos, à vez,
E por palavras, mais ou menos ariscas,
Transmitidas no melhor do português.
Dei um beijo apaixonado nos teus lábios
Tão suave que exaltou a excitação,
Oscilando a própria árvore dos sábios
Cujo tronco é coberto de razão.
Os teus gestos demorados e carentes
Colocaram do avesso o coração.
Nossos dedos, sempre muito persistentes,
Eram cúmplices de infinita sensação.
Noite… sem saber dar-se por finda,
Aclamando parceiros de almofada
Sussurrando, pela brisa: “Como és linda!
De fazer inveja à própria madrugada”.
Da janela da tua casa de praia
As estrelas brilham tão intensamente,
S’ iluminam quando subo a tua saia…
E te sinto muito húmida e quente.
Nossos corpos, absorvidos no prazer
E teimosos por cada repetição,
Destemidos na vontade de viver,
De que as almas prestam subtil devoção.
A alvorada espreitou no canto do olho,
Quando os membros já se davam por vencidos
E os sonhos prolongavam ao sobrolho
Os momentos tão intensos já vividos.
Acordei-te com o cheiro do café
Espalhado nessa tua “Maresias”,
Saboroso, mesmo, mesmo, que até
Exclamaste que mais nada pretendias.
Muitos dias neste amor contagiante
Partilhando caminhadas pela bruma.
Um sorriso permanente no semblante…
Quem é que de ser feliz não se acostuma?
No regresso para o País mais a leste
Descansámos, por minutos, no jardim.
Tu disseste-me: «afinal, sempre “Vieste”
E guardaste todo o teu amor para mim.»
IV - Despedida….
Já sentados no conversível vermelho,
Estacionados na gare do aeroporto,
Este corpo, inesperadamente velho,
Não queria abandonar o teu conforto.
Despedimo-nos com demorado abraço
E os rostos estampados de desgosto.
É que a vida não modifica o traço
Do destino, nem mesmo a fogo posto.
Mesmo assim ofereci-te uma viagem
Para a terra do meu sul, de sol e sal
Esperando por assomo de coragem
Que ilumine a minha Ilha e Portugal.
Já nas escadas conduzindo à aeronave,
Qual soldado que não olha para trás
Quando chega perto de hostil entrave,
Pressentia-te a dizer: “Amor… não vás!”
Foi então que olhei para trás mas não te vi…
Era tempo de te encontrar no futuro…
Eu que, um dia, muito amei tal qual sofri,
Saberia procurar-te pelo escuro…
V - Voo para o presente
Nos círculos que dançaste no meu peito,
Cujos rastros sinto, aqui, tão bem cravados,
Frutificam as raízes do teu leito
Nestes entes nunca antes bem amados.
Eu que andava já tão cheio de vazio
E via no horizonte uma barreira
Já não sinto esse limite, nem o frio
Que acompanha estas “Noites da Madeira”.
Estou sozinho, mas tão bem acompanhado
Pela linha que me liga ao coração
Do teu verso tão gentil e delicado:
Poesia que guiou a minha mão.
VI - Homenagem
Nas noites em que a tristeza desampara
Teu peito, chorando o que o olhar não vê,
Tens no lenço que aconchega a tua cara
A certeza de ser “louco por você”!
Neste canto de justiça ao teu encanto,
Porque não sei descrever doutra maneira,
Largo as lágrimas, sacudidas do meu pranto,
Espalhando-as pela tarde soalheira:
Entre a brisa que absorve o nosso cais
Misturei-as no cheiro da maresia
E agora têm nomes imortais:
Todas juntas são saudade e poesia!
Se sonhar é acordar-se para dentro (como disse Mário Quintana), ter insónias é ficar a meio caminho...
Preferiste a sétima arte:
Com ela conheceste o mundo.
Puseste a música de parte,
Ou, talvez, num coma profundo…

Preterido pelo cinema -
A imagem em movimento -
Desprezaste o meu poema:
Película do pensamento.
Mas chamaste, à última hora,
A música: banda sonora,
Instrumental e acessória.
Nela meu bandolim não cabe:
Seria um fogacho que arde
Em efémera trajectória...
(A primeira versão data de 20.06.2001)