abril 28, 2005

Sétimo Selo

Setimo selo.bmp é uma aposta recente de pessoas interessadas na difusão de uma oferta alternativa ao cinema dito «comercial», nesta cidade do Funchal.

É, por isso, com grande satisfação que vejo esse projecto implementado e desejo aos seus protagonistas as maiores felicidades. Na certeza de que tentarei contribuir, modestamente, como cinéfilo "diletante", para a vossa viabilidade e durabilidade num meio como o nosso.

Felicidades e um abraço do Pássaro Distante.

P.S. - Para esclarecimento: eu não tenho rigorosamente nada a ver com esse projecto. Apenas entendi dever acarinhá-lo nos Sete Ofícios.

Postado por Pássaro em 12:06 PM | Comentários (7)

abril 21, 2005

Vida acorrentada (Pássaro Distante)

Tens a vida arrasada.
Tua voz fica calada,
No teu rosto o embaraço:
Nesse peito um sufoco
Por saber que tudo é oco
Em redor do teu espaço.

Já não sabes com que cara
É que o outro te encara.
E vês nas virtudes vícios
De vida passando ao lado
No seu ritmo apressado
Ignorando os teus suplícios.

Encostas na almofada
O desgaste da jornada,
Ou novelo interrompido...
Amanhã é outro dia,
Previsível romaria,
Dum destino decidido.

O teu olhar de defunto
Ao encarar cada assunto
Dá-te um ar profissional…
Se soubessem o que pensas
Retiravam-te as avenças
E subvenção social.

Quando se perde um afecto
Um desejo ou um projecto
Passa a preto o que era azul.
No rosto fica a saudade,
No passado a mocidade
Em que o norte estava ao sul.

E, sozinha frente ao espelho,
Esse ingrato, esse velho
Reflexo de lucidez,
Deixas descair o brilho:
Cada lágrima no trilho
Aguardando sua vez…

Molham os teus pés descalços
Agravando os percalços
Dum corpo quase inerte
Em busca dum aconchego,
Duma réstia de sossego
Que em noite se converte.

Já nem vês a aliança
Que no teu dedo balança
Em som desorientado.
Perdida entre os anéis
E, de dia, nos papéis
Que te tornam ocupado.

Entre juras de mudança
E cansada de esperança
Quem tu amas vai embora.
De repente vem o frio:
És a vela sem pavio
Sem saber se ri se chora.

Teu suor é diferente.
A perna está dormente
De só ficares sentado.
Pensando, porque a vida
Conseguiu abrir ferida
Entre o certo e errado.

E contemplas o crepúsculo
Com a réstia de um músculo
Que mantém teus olhos firmes.
Pouco a pouco, passo a passo,
No teu ritmado compasso
Lês as palavras que imprimes.

Cavaleiro de papel
E pedaços de cordel
No teu quarto espalhados
Deleitando a bicharada
Nesse chão refastelada
E imune aos teus recados.

Preferes morrer à fome
Que dizer teu próprio nome
Desgastado da rotina.
Pois viste o que perdeste
Pelo pouco que viveste
Renegado na colina.

De perdido nos rascunhos
E já sem forças nos punhos
Lança o último grito:
Mesmo que, a falso, soe
Se a magoei, perdoe.
É o meu apelo aflito.

De papelada inundado,
O próprio Sol é tapado,
Entre o vidro e a cortina.
Tal e qual uma muralha
Que se ergue quando falha
A absolvição divina.

Acordei! Vês? Era sonho
Tão sentido e tão bisonho…
É imagem do futuro?
Era Paulo agora é Bento
Que te adverte do tormento
Dum Mundo sempre mais duro.

Postado por Pássaro em 01:30 PM | Comentários (13)

abril 20, 2005

Cais do Pensamento - Paraíso do Oeste

Onde a tristeza pode sobrevoar o meu voar, mas neste não consegue fazer um ninho...

Postado por Pássaro em 01:53 PM | Comentários (2)

abril 18, 2005

Rui Veloso e a OCM (Orquestra Clássica da Madeira)

Depois de ter lido o artigo no Diário de Notícias da Madeira cheguei à conclusão de que nada mais teria a contar sobre o concerto que assisti na Praça do Município. Por isso «peguei emprestado», com a devida vénia, a foto e o excelente texto da jornalista Paula Henriques.

Rui Veloso e a OCM 20050416.bmp

«Um espectáculo. Dizer menos, é dizer pouco sobre o concerto de ontem à noite de Rui Veloso com a Orquestra Clássica da Madeira.

Milhares de pessoas encheram a Praça do Município para assistir ao primeiro, dos três momentos de fusão agendados para esta temporada da OCM. O repertório foi composto por um conjunto de sucessos e passou por quase todos os álbuns. De destacar a Canção de Marinhar, onde a orquestra, o público e Rui Veloso fizeram um dos momentos mais altos do espectáculo, juntamente com as interpretações de Paixão, Porto Sentido e Chico Fininho.

Nem mesmo os orvalhos, que teimaram em se juntar à festa, conseguiram dissuadir a população que não deixou de cantar e bater palmas ao longo de uma hora e meia.

«Esta é que é uma casa da Música», disse o cantor à assistência, tendo recebido de volta uma salva de palmas.

Brincadeiras, misturas e solos contribuíram para que no final Rui Veloso classificasse o concerto de "bestial" . Confessou mesmo que pela primeira vez assistiu a uma "comunhão" de público com uma orquestra. «Esta é que é interacção», frisou.

Não sendo a primeira vez que toca com uma orquestra, foi a primeira que tocou durante tanto tempo e com arranjos originais, havendo mesmo a possibilidade de gravar, mais tarde com um conjunto de músicos.

Rui Massena adorou o concerto. O maestro disse que a OCM está no bom caminho e que sentiu carinho por parte do público. Sentimento que se estende ao resto da formação, a partir um comentário de um dos músicos que afirmou que isto é daquelas coisas que deviam acontecer todos os dias».»


Paula Henriques (phenriques@dnoticias.pt):
http://www.dnoticias.pt/default.asp?file_id=dn010806160405

P.S. - Se avançarem com a ideia de gravar um CD ou um DVD, não se esqueçam da música «Cavaleiro Andante», para mim uma das mais bonitas de Rui Veloso

Postado por Pássaro em 08:41 AM | Comentários (4)

abril 15, 2005

Concerto de Norberto Gomes e da Orquestra Clássica da Madeira

Na passada sexta-feira fui assistir a um concerto da Orquestra Clássica da Madeira, dirigida pelo maestro Rui Massena e com Norberto Gomes como solista, no Violino (de quem recebi pessoalmente o convite, mas é claro que entendi ir na condição de pagar o bilhete, pois são poucas as receitas das actividades culturais...), executando o seguinte programa:

- Vivaldi - As Quatro Estações

- Mozart - Sinfonia n.º 41 em Dó Maior, KV 551.

O concerto decorreu no Auditorio do Casino da Madeira, uma antiga sala de cinema transformada numa agradável Sala de Espectáculos. Na qual já actuou, por exemplo, o grupo Ala dos Namorados, que muito aprecio também.

Norberto Gomes foi o solista d' As Quatro Estações de Vivaldi e esteve muito bem. Norberto iniciou os seus estudos (tal como eu) no Conservatório de Música da Madeira e foi bolseiro da Associação de Amizade Portugal-URSS.

Vou expor um pouco do seu currículo, que é um orgulho não só para os seus amigos, pelo menos os de longa data, mas também para a Ilha da Madeira:

Norberto Gomes foi galardoado com vários prémios nacionais, destacando-se o 1.º Prémio Nível Superior - Solista no Concurso Músicos RDP e "Mérito Artístico" emanado pelo Governo Regional da Madeira.

Foi concertino B da Orquestra de Câmara "Archi", tendo efectuado digressões por vários países europeus.

Como bolseiro do Governo Regional da Madeira - e sob orientação do distinto violinista, crítico musical e Professor A. N. Gorochov - em 1995 terminou a licenciatura na Faculdade de Cordas do Conservatório Tchaikovsky, sendo-lhe atribuído o Grau de "Master of Fine Arts".

Em 1997 terminou o Curso de Doutoramento com distinção em violino com qualificações de solista e Professor do Ensino Superior. Foi eleito "Músico do Ano" da OCM em 1999. Neste momento é professor no Conservatório - Escola das Artes da Madeira, Concertino da OCM e Adjunto do Director Artístico desta.

Hoje a Orquestra Clássica da Madeira vai actuar, na Praça do Município do Funchal, com o artista Rui Veloso, num concerto de fusão que se perspectiva fantástico!

Este concerto está já integrado nas Comemorações dos 500 anos da Cidade do Funchal.

Eu vou lá estar, quanto mais não seja porque meu amigo Norberto vai novamente brilhar.

P.S. - Aguardo que ele me envie uma fotografia (junto do seu violino) para poder completar este post...

Postado por Pássaro em 09:59 AM | Comentários (3)

abril 08, 2005

Quintal trancado (Pássaro Distante)

Já não regas essas flores
Que te aguardam no jardim,
Pacientes, mas com dores…
Numa agonia sem fim.

- Mas porquê - Ò jardineiro -
A razão de tanta seca?
- Parece que o mundo inteiro
Perdeu a sua boneca…

As flores precisam de água!
Mas trancaste, a cadeados,
Meu apelo e esta mágoa:
Do teu quintal arredados.

Aqui estou, no lado errado
Do muro do teu quintal,
Mantendo-me acordado,
Esperando por teu sinal.

O coração apertado
E a alma impaciente
Suspiram em triste fado…
Sós, inevitavelmente….

E as flores? E as flores
Que reguei com tal carinho?
Não as deixes sem amores,
Dispersas pelo caminho…

Espreitando pelas frestas
Sinto-as desconsoladas:
São trocadas pelas festas,
São banidas das baladas.

Flores, de alma lusitana,
Criadas em Vera Cruz
Com raiz italiana…
Que secam sem tua luz.

Postado por Pássaro em 12:05 PM | Comentários (8)

abril 06, 2005

Um poema de Alberto Caeiro

Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol.
Do que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor de sombra.

Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem em mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés –
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma…

(Alberto Caeiro, «O Guardador de Rebanhos, Parte XXIX», in Poesia de Alberto Caeiro, edição de Fernando Cabral Martins e Richard Zenith, da editora Assírio & Alvim)

Postado por Pássaro em 08:09 PM | Comentários (1)

abril 01, 2005

Em memória de José António Gonçalves

(Pássaro Distante)

Nas sombras de um lugar ermo
Jaz, só, prostrado e enfermo,
O exemplar do sepultado.
Haverá uns chorando a dor;
As letras, decerto, o suor
Dos seus partos ora cessado…

As páginas sujas de terra,
Dos pés dos “senhores da guerra”,
Conspurcam gélido caminho.
Meu amigo, que vais embora,
Como em todos, em má hora,
Feito pó, do pão e do vinho.

O meu lamento é desalento
Estorvado por rude vento
Nessa lápide incrustado.
O seu gosto é tão amargo
Que, impotente, o guardo
Junto a cada meu pecado.

Quis ir à última morada,
Concorrida e carregada
De tristeza e poesia.
Mas o manto dos senhores
Poderosos (e assessores)
Infectava a minha via.

Nas sombras de um lugar ermo
Jaz, só, prostrado e enfermo,
O exemplar do sepultado,
Ora estrela cintilante.
És o meu poeta distante
Porque o futuro… é passado.

Postado por Pássaro em 01:53 PM | Comentários (5)