fevereiro 24, 2005

Alguém perdeu o sapato de cristal?

Cinderela, cinderela:
Estrela guia do meu pranto
derramando a aguarela
com mistérios e encanto.

Cinderela, cinderela:
Luz de estrela equidistante
tranformando a vida bela
do seu Pássaro Distante.

Cinderela, cinderela:
Escondida no jardim.
Só te vejo à luz de vela
e no cheiro de um jasmim.

Postado por Pássaro em 07:25 AM | Comentários (17)

fevereiro 15, 2005

Samba de Orly (Vinicius de Moraes - Toquinho - Chico Buarque, 1970)

Vai meu irmão
Pega esse avião
Você tem razão
De correr assim
Desse frio
Mas beija
O meu Rio de Janeiro
Antes que um aventureiro
Lance mão

Pede perdão
Pela duração
Dessa temporada
Mas não diga nada
Que me viu chorando
E pros da pesada
Diz que eu vou levando
Vê com é que anda
Aquela vida à toa
E se puder me manda
Uma notícia boa

Postado por Pássaro em 08:52 AM | Comentários (4)

fevereiro 13, 2005

Atrás da Porta (Francis Hime & Chico Buarque - 1972)

Elis Regina «reapareceu» num DVD (MPB Especial 1973 - Programa Ensaio gravado na TV Cultura) e interpretou este delicioso tema «Atrás da Porta», de Chico Buarque e Francis Hime:

Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei
Me debrucei
Sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
No teu peito (Nos teus pelos)*
Teu pijama
Nos teus pés
Ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho

Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que inda sou tua
Só pra provar que inda sou tua...

(* verso original vetado pela censura)

Postado por Pássaro em 11:51 AM | Comentários (3)

fevereiro 09, 2005

Marcha da Quarta Feira de Cinzas (Carlos Lyra & Vinícius de Moraes)

Acabou nosso carnaval, ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê é uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija e se abraça
E sai caminhando, dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir, voltou a esperança
É o povo que dança, contente da vida feliz a cantar

Porque são tão tantas coisas azuis, há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver e brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz

Postado por Pássaro em 02:56 PM | Comentários (2)

fevereiro 07, 2005

Os poetas (Pedro Paixão)

Já não nos censuram
já não nos matam
já não nos põem detrás das grades.

não é preciso

nós censuramo-nos a nós próprios
trazemos a censura
dentro do nosso cérebro

Não estamos mortos
mas vivemos em caves
e ninguém vê a luz
do sol.

não querem saber
sabem muito bem que
ninguém os lê
que a poesia morreu
embora vivos os poetas.

(Pedro Paixão, in «Onze Noites em Jerusalém», p. 100)

Postado por Pássaro em 08:05 AM | Comentários (1)

fevereiro 04, 2005

Morte de um Pássaro (Vinícius de Moraes)

Vinicius de Moraes.bmp

Se tivesse tido tempo de correr pela campina, seu corpo de poeta-pássaro ter-se-ia certamente libertado das contingências físicas e alçado voos para os espaços além; pois tal era sua ânsia de viver para poder cantar, cada vez mais longe e cada vez melhor, o amor, o grande amor que era nele sentimento de permanência e sensação de eternidade.

(«Morte de um Pássaro, Réquiem para Frederico García Lorca», de Vinícius de Moraes, in PARA VIVER UM GRANDE AMOR – CRÔNICAS E POEMAS, P.78-79

Postado por Pássaro em 08:21 AM | Comentários (7)

fevereiro 01, 2005

Piso 5, Quarto 7

(escrito ao som de «O Primeiro Beijo», do Grupo «Cabeças no Ar»)

I
Hoje é noite de hospital
De acompanhar a doente.
Trago comigo um jornal
E aguardo paciente.

Junto à tua cabeceira
Dou-te a minha mão, Amada
Avó, que és mãe primeira,
Descansa nesta almofada.

II
Já tivemos nossos dias
De encanto e de ternura
Mas agora as agonias
Juntam-se à amargura.

Parece que o «fim da linha»
Se começa a avistar…
Mas até ao fim és minha
Grande Avó: vou-te beijar!

III
Vou mexer nos teus cabelos,
Inundar-te de beijinhos,
Massajar-te os cotovelos
Entre muitos mais carinhos.

Se soubesses o tormento
De te ver prostrada assim…
Parece que a voz do vento
Tem recado para mim…

Ref.
«- Já viveste longa vida,
De alegrias e tristeza,
E como pérola rara
Vem a Mim, Maria Teresa:
Outra vida nos separa…»

IV
Vivo este desconforto
Vendo o tempo a se esvair…
Eu que tinha no teu porto
As razões para sorrir….

Sinto agora neste peito
Lágrimas amarguradas:
Escorrem sem qualquer jeito,
Perdidas nas almofadas.

V
Foste a minha inspiração
E exemplo para a vida
Aprendi cada lição
Ao ter a tua guarida.

Ver-te assim é desespero.
Sinto que perdi o norte.
Neste meu choro sem esmero
Vê lá tu: eu não sou forte.

VI
Minha vida mais vazia
Ficará, perdidamente.
Minha querida Avó Maria:
Amo-te eternamente.

Não consigo mais escrever
Tenho a vista derrotada
Por lágrimas a morrer
Nesta folha escancarada.

VII
Aqui estou aos pés da cama
Onde passarei a noite
Num silêncio que engana
E castiga como açoite.

Nada mais é relevante
Que ouvir o teu respirar
Não importa se ofegante…
Como o queria sem cessar…

VIII
Sinto o corpo a estremecer
De tristeza e impotência.
Queria ver-te a viver,
Não sofrer com a tua ausência.

É que… olho para o lado…
- Deixa-me ser egoísta:
Nunca fui tão bem amado
Senão sob a tua vista.

IX
Ver-te assim a perecer
É ruim demais para mim.
Não precisas esmorecer
Pois és flor do meu jardim.

És a estrela do meu pranto
Suplantando a agonia
Guardarei o teu encanto
Até ver-te noutro dia.

X
Minha lágrima assustada
Com o aproximar da hora
Pressentindo a «emboscada»
De Quem quer que vás embora…

Estas palavras são armas
Contra a vontade divina
Ressaltando rudes «karmas»:
Vão levar minha menina!

XI
Se me chamam de poeta
Não respondo, resignado:
Não há ligação directa
Ao jardim do outro lado…

Juntos na eternidade
Novas estrelas surgiriam….
Deixar-me-ás com saudade,
Com angústia e agonia.

Postado por Pássaro em 08:57 AM | Comentários (6)