Joaquim Campos, fadista do século dezanove , princípios do século
vinte, autor da célebre melodia que Amália repescou cantando-a com os versos de Pedro Homem de Mello: «Povo que Lavas no Rio».
Obrigado Valéria, não é só Coimbra que é uma lição...
Nos blogs amigos deste Sete Ofícios (ou clicando por aqui) podem procurar tantos e tão profundos ensinamentos e vivências desta cosmopolita amiga: Fadista Valéria Mendez.
Depois disso sugiro uma interessante visita ao Historial do Fado.
... tudo o que me dizes é aquilo que eu te quero dizer...
Tinha lágrimas aos molhos
porque não via você.
(Eu sei...)
Não se pode ver com os olhos
O que só o peito vê.
E quem meu coração vê?...
É segredo, não o nego.
Mas, «por causa de você»,
sei qu' ele já não é cego!
O mote está aqui. Basta clicar...
Poema: Pássaro Distante
Música: Joaquim Campos
Data: Novembro de 2004
Povo que matas o rio
Com dinheiro mal honrado,
Fruto da tua ambição;
Povo que cravas no rio,
As marcas do teu pecado,
Rosto de poluição;
Pode haver quem te defenda,
Quem diga bem do errado,
Mas o oceano não.
Vivo em gaiola redonda,
Marcada por uma sonda
Que chora sobre o teu chão;
Recebo de cada onda,
Como se fosse uma ronda,
Com nome de “evolução”;
Era o lixo que me deste,
Água suja, fumo agreste,
Mas um oceano não.
Cheiro de cancro e de fama
Aromas da tua cama,
Eis a tua condição;
Tratas tudo pela rama
Só pensas numa outra trama,
Para vil satisfação;
Povo, polvo, se te pertenço,
E me enganas com incenso,
Mas ao oceano não.
Povo: não lavas no rio
Nem talhas mais com machado
As tábuas do meu caixão.
Basta acenderes o pavio,
Quem sabe, reciclado,
Pela incineração.
Não importa se te ofenda
E cuspa no chão sagrado:
Não mereces o perdão!
Celebrizado por Amália Rodrigues, este:
Povo que Lavas no Rio
Poema: Pedro Homem de Mello • Música: Joaquim Campos • Primeira Gravação: 1962
«Povo que lavas no rio,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
bis
Pode haver quem te defenda,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não.
Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
O beijo de mão em mão;
Era o vinho que me deste
Água pura, fruto agreste,
Mas a tua vida não.
Aromas de urze e de lama
Dormi com eles na cama,
Tive a mesma condição;
Povo, povo, eu te pertenço,
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida não.»
acompanhado do seguinte pensamento:
«Quem muito dá muito recebe» (anónimo).
Postado na casa antiga fez um ano, este:
SOL DE NOVEMBRO (Pássaro Distante)
Sol que mostra a face
À face desta Terra
E que, sem pedir passe,
Neste Novembro aterra.
Sol que traz calmaria
Ao mar que prolifera
E em cuja maresia
Meu vento desespera.
Sol invasor dum quarto,
Dum carro e gabinete
No qual tanto me farto
Por viver cada falsete.
Sol que brilharia
Num espírito ausente
Dum corpo que mentia
De forma incoerente.
Sol que aproveita
Saudades do futuro
Ou Verão que mal aceita
As cinzas dum escuro.
Sol que não sublinha
Calor num corpo frio
Provocando na espinha
O mal de um arrepio.
Sol que atormenta
A leitura dum livro
Ou de qualquer sebenta
Que anota o que me privo.
Sol que poderia
Ser tu, perfeitamente,
Não fosse a luz do dia
Ferir-me de presente.
Sol que não permite
As sombras no teu ser
E que, até, omite
A dor de te perder.
Sol que não se importa
De dar o brilho à Lua
Que abre a minha porta
Quando te sinto nua.
Sol que, por acaso,
Musica o meu vício
Alongando o ocaso
Por mando do armistício.
Sol que não se agrafa
Às faltas de coragem
Tão pouco desabafa
Sonhos aos que não agem.
Sol forte que arde
Na minha consciência
E chama de covarde
À minha existência.
O Sol da Primavera
Que nasceu em Agosto
Sangrou uma quimera,
Matando-a de desgosto!
Enquanto estiver ganhando o pão de cada dia, não deixe de oferecer uma fatia aos menos afortunados.
(S. Brown)
Sete Ofícios e seu Pássaro foram homenageados, com a reprodução do poema «Mar do Outro Lado» no blog TENTAÇÕES.
E que delícia ter tido a grata surpresa de ver esse escrito associado a uma melodia que adoro desde que comecei a voar...
Obrigado Chris.
No dia 2 de Outubro deste ano, aproveitando para saudar o regresso de Doce Maior de Buenos Aires, efectuei um post-scriptum manifestando, do meu jeito (raramente) irritado, a minha tristeza por alguém ter «desaparecido» sem ter avisado, ausência essa que perdura até esta data, ao que suponho por motivos de saúde.
Trata-se de uma pessoa amiga minha e de muitos dos que me visitam, que é a blogueira do «Verso Explícito» Danâe.
E, a propósito duma ausência anterior, tinha escrito, no pouso antigo, um poema que pretendia dar algum alento para essa fase ruim, pelo que, por continuar sem ter inspiração para novos escritos e sem ter notícias dessa minha amiga, volto a postá-lo, com votos de um rápido restabelecimento e regresso:
Entre o silêncio do ser e a escrita da alma (Pássaro Distante)
Eu queria destapar essa agonia
Com os voos desta imaginação
Que se esconde, tal e qual o fim do dia,
Entre os ventos da desorientação.
Eu queria demonstrar minha amizade
E poder-te transmitir «aquele abraço»
Traduzido nas letras desta vontade
Induzida, risco a risco, traço a traço.
Eu queria dar-te um pouco do meu colo
Cantando-te a mais linda melodia,
Recitando-te os poemas do meu solo,
Aquecendo a lucidez de noite fria.
Eu queria ser um Pássaro presente
Com quem meus amigos possam contar.
É que sinto-me, por vezes, tão doente
E não tenho mesmo jeito de agradar.
Eu queria dar um pouco mais de alento
A quem olha mas não sabe mais sonhar,
Carregando uma vida de tormento,
Compensada no calor que tem para dar.
Eu queria transformar o teu avesso
Que espelha muito bem esse teu verso,
Modificando o meu, eu não me esqueço.
Verso Avesso? Ou apenas Reverso?
Ilha
Deitada és uma ilha. E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente
promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente
Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro
ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias
... sendo desconhecidas as causas, tão pouco a duração ou a irreversibilidade, ou não, de tal estado.
Mais informações serão disponibilizadas oportunamente.
Ass: Veterinário Ornitológico