I
Rua Conde de Almoster
Que te viu abrir os olhos
No colo dessa mulher
Que, esteja onde estiver,
Deixou lágrimas aos molhos.
Estrela deste amor ausente
Que deu asas ao destino
E condenou fatalmente
Um amor imprevidente
Nos carris do desalinho.
II
Na Estação desactivada,
Mero ponto de passagem
Que marca a tua jornada,
Solitária caminhada
Ao som de subtil aragem.
Junto à Serra de Monsanto
Definiu sua partida
Na Estação do Desencanto,
«Cruz da Pedra» do teu pranto,
E lá foi à sua vida.
Ref.
Mensageira desse fado,
Lucidez incandescente
Dominando o teu passado
Em tom desavergonhado,
Exibindo o seu presente.
Mulher que com véu ilude
E de tempo se mascara,
Disse-te, de forma rude,
Que seu nome é juventude,
Ou beleza ténue e rara.
III
Despede-te das raízes,
Tal e qual da outra vez.
Os teus olhos infelizes:
No teu corpo as cicatrizes,
No teu espírito os porquês.
Lança o último olhar
À Serra que te acolheu.
Teu destino é Insular,
Em Lisboa vais deixar
Tudo aquilo que era teu...
Minha Amiga que se ausenta
por motivos de saúde:
Meu sossego se atormenta
com a tua quietude.
Minha Amiga que se esconde
Do sujeito e predicado:
Haverá alguém que sonde
O teu andar camuflado?
Minha Amiga, cara Amiga:
como é fria a noite escura!
Que tormenta, que fadiga
nessa luta pela cura.
Minha Amiga afastada
do convívio dum poema,
percorrendo a madrugada
de forma pouco serena.
Minha Amiga: está na hora
de pedir o teu regresso!
Rezei a Nossa Senhora
que trouxesse o teu verso!
Minha vela está acesa,
noite e dia, de verdade.
Com esperança e com firmeza,
em nome da Amizade.
Se eu pudesse retirar esta saudade
Dos confins do meu olhar emudecida
E te a desse, embrulhada na vontade,
Para sentires como anda a minha vida...
Se eu pudesse dominar o meu lamento
Sem as notas deste acorde angustiado
Que esvoaça abafado pelo vento
E não sopra junto de quem está calado.
Se eu pudesse mostrar-te este olhar ausente
E o perfume dum tal corpo arrastado
Para o cais que não recebe sorridente
O silêncio de quem seja abandonado.
Se eu pudesse viver anestesiado
Pelo tempo que durasse a tua ausência
Ou presença nesse «mar do outro lado»
Que se agita ao pé de ti com veemência.
Se pudesse... mas não posso interferir
Com a corrente, prepotente, do destino
Que te prende na vontade de partir
E afoga o teu sonho de menino.
Cai a tarde na direcção das antigas docas do porto de Buenos Aires. Em Puerto Madero, onde contempla o magnífico pôr-do-sol, observa minuciosamente, dentro dos cada vez mais fracos limites que a sua visão lhe permite, os transeuntes que circulam, esperançado na vinda da sua Padmini (que em sânscrito significa «amor de todas as vidas»). Num dos bares desta afamada cidade argentina, capital do Tango, Astor Piazzola é exuberantemente recordado por um acordeão que toca, demorada e repetidamente, Tristeza, Separacion...
Perde-se no voo que essa melodia proporciona enquanto espera. Acompanha-o um misto de esperança e de amargura pelo tempo perdido, pelas oportunidades retiradas, pelas palavras que ficaram por dizer, pela coragem que não teve, pela impossibilidade de corrigir gestos e atitudes, de voltar atrás, ou «começar de novo».
Sente que os seus dias estão contados, que não havia "engano divino" no cálculo. Enquanto isso, espera. Espera por ela, como um clarão que irrompesse do cinzento que teimava colorir a sua vida...
Ela não vem. Nem virá. Repetia-se, assim, o desapontamento diário que já somava duas décadas.
Os últimos raios de sol acompanham a sua entrada no bar, atraído pela música. Senta-se numa cadeira e pede uma garrafa de vinho tinto de sabor a nada. Quase não repara na empregada que preenche o seu copo, não fosse a demora com que o servia. Observa-a melhor: era ela!
Seus olhos verdes e sorriso provocador fazem-no renascer para a vida e levantar-se arritmicamente da cadeira, agarrando-a pela mão, retirando-lhe o avental e levando-a para o improvisado palco daquele bar minúsculo.
Resiste a beijá-la... talvez como quem não perdoasse a demora pelo reencontro. Dançam ao som do tango como nenhum bailarino profissional dificilmente conseguiria executar, pois não é todos os dias que se alia o amor à arte e o amor de um «Padmini»...
Dança inesgotável no tempo e no espaço. Subitamente dirige-se à sua mesa e senta-se. Bebe um golo de vinho enquanto a observa na dança solitária... Sem desviarem o olhar trocado contemplam-se naquele contraste simultaneamente proporcionado pelo movimento e pela imobilidade: ela dançando, pois a sua vida fora repleta de viagens e de conhecimento, de aventuras e desventuras; ele sentado, pois o seu destino era esperar, como sempre foi, por ela. Preenchiam-se nesta forma dispare, numa espécie de preparação da vida para a nova etapa que abraçavam comummente.
Ela tinha a experiência e ele os sonhos com que inundaram de paixão o conversível encarnado que os aguardava, já o sol raiava, à porta do bar, para rumarem a Norte. O beijo que demorara noite inteira aconteceu finalmente, já sentados no carro que ela trouxera. Como que a selar no coração o sofrimento pela separação de quem é feito um para o outro...
Partiram. Um ligeiro aceno, em sinal de reconhecimento, ao afamado porto argentino, porque foi a sul que cada um encontrou o norte, para não mais olharem para trás. Perderam o esplendor dos seus anos juntos, mas nem tudo estava perdido: entravam abraçados na velhice e, assim, poderiam esperar pelo fim dos seus dias com o sentimento de missão cumprida e de parceria definida para a próxima viagem destinada por Deus.
Sim, porque certamente não seremos colocados num inferno de instabilidade, a que se dá o nome de Terra, sem uma finalidade superior e nobre.