maio 26, 2004

Auto-retrato... em véspera de aniversário (Pássaro Distante)

Em cada vez que te ausentas
No peito nascem tormentas
E a saudade perpetua,
No jardim de nossa casa,
Sentimento que me arrasa
E me põe no meio da rua.

Cada vez que vais embora
O meu peito aperta e chora
Lágrimas no vão da escada,
Esvaindo o sal do rosto,
Mascarando de desgosto
Vida tão sacrificada.

És imune ao comentário
Que vês como um dicionário
Paginado de lamentos.
Não investes no futuro,
Só te sentes bem no escuro
Sem esgrimires argumentos.

Levas, mudo, na sacola,
Uma fita que isola
A vontade de ficar.
Será gesso ou ligadura
Que meu tímpano apura
Quando vais mudar de ar?

Gravas, no meu ser, o escopo
Ou vestígios de um soco
Colorindo o teu azedo.
Não dá para reagir,
Tão-somente ver partir
As asas do teu enredo.

Plataforma giratória
Dessa tua trajectória
E perfil itinerante.
Alvo duma emboscada,
Recebendo uma granada
De ti: Pássaro Distante.

E, na busca da verdade,
Já não há força e vontade
Que desvie o teu caminho.
Um resquício do passado
Fica preso, arquivado,
Agora que estás sozinho.

Não mereces o lamento
De quem vislumbre por dentro
A paz: que foge assustada;
Expulsa do coração;
Perdida, deu tropeção
No teu voo ou caminhada.

Nesse jeito diletante
E trajecto oscilante
(Para uns indelicado)
Tal e qual "ovelha negra"
Que se apanha numa adega
E pulula embriagado.

Postado por Pássaro em 01:45 PM | Comentários (0)

maio 20, 2004

A ditadura das letras (Pássaro Distante)

Chovem letras espigadas,
Caindo, desordenadas,
No pátio do pensamento.
Patamar tão encharcado,
Eternamente alagado
Pelo vendaval do tempo.

Letras formando o cinzento
Que cercam o próprio vento
E fustigam sangrada alma.
Com o coração apertado
E o abecedário afiado
Por lava que não se acalma.

Sete ventos, sete dias
De solitárias orgias
Entre vogais e consoantes.
Num êxtase surrealista
Ejaculam-se à vista
De uma penada inconstante.

Nesta folha tresloucada,
À deriva, na madrugada,
Sopram suspiros iletrados.
Letras loucas de prazer,
Impiedosas do meu querer
E impulsos esquartejados.

Mão isenta de vontade
Sem qualquer habilidade
Para escrever algo com nexo
Na folha que inventa regime
Ou ditadura que oprime
Quem não pensa só em sexo.

E uma escrita solitária
Escorre, na mortuária
Casa, dita meu corpo.
É avessa ao teu lenço
E às faltas de bom senso
Que habitam neste porto.

Escrita de tinta branca
Que vê, na folha, a tranca
Para a sua livre expressão,
Não extravasando os seus sonhos,
Alguns deles muito risonhos,
Que morrem... sem comunhão.

Postado por Pássaro em 01:46 PM | Comentários (0)

maio 01, 2004

Ficcionando... com Paco de Lucia

Voltaste a Punta Del Este e, pela segunda vez, ficaste hospedada no Hotel Conrad. Por daquelas coincidências que ninguém consegue explicar, estava prevista uma actuação do famoso violinista Paco de Lúcia, que, anos antes, tocara naquele hotel exactamente na mesma altura em que lá estavas a passar férias.

O «show», desta feita, era um pouco diferente. Pela primeira vez na sua longa carreira, Paco, que estava sozinho no palco, decidira, a dado momento, acompanhar-se em palco do bandolim de seu amigo Pássaro Distante, numa homenagem que pretendia fazer à MPB, assim que verificou que, no Hotel, estavam hospedados inúmeros patrícios de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes.

E lá estavas tu. Bela, linda, graciosa, deslumbrante e sorridente. Sim, sorrias não só com o sucesso do teu romance literário, mas também com a possibilidade de, finalmente, não teres ninguém a te impedir de conhecer, pessoalmente, Paco de Lucia.

Mas quem queria conhecer-te, desta vez, era o próprio Paco de Lúcia, que não tirava, tal como eu, os olhos do teu ser. Eras um espectáculo dentro do próprio show. Tocávamos «Manhã de Carnaval», de Luiz Bonfá... Assim que meu bandolim permitiu que Paco fizesse o seu solo, fui impelido pelo instinto a sair do palco, indo buscar-te pela mão para dançarmos o que faltava dessa linda música...

Sorriste... uma vez mais. Agarrei-te pela cintura, do jeito que mais gostas... dançámos juntos, olhos nos olhos, selando o final da dança com um beijo... que roubei de ti!

Ainda o show não tinha acabado, perante o olhar incrédulo da audiência, apresentei-te a Paco de Lucia... satisfazendo, com isso, um teu desejo antigo. E não deixou de ser curioso que, da primeira vez, perderas o namorado só porque ele não deixou que conhecesses o famoso músico... desta vez perdeste outro namorado mal ele testemunhou o beijo que eu, desde há muitas encarnações atrás, desejara «roubar-te»... Roubei... porque teus olhos verdes «diziam-me» para fazê-lo...

Deturpando um trecho da música «Primavera» de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes e porque, afinal, nós somos aquilo que sonhamos (não é verdade?...):

Ai quem me dera
Ser a tua Primavera...
Para depois morrer em paz.

Postado por Pássaro em 01:48 PM | Comentários (0)