abril 24, 2004

Homenagem a Doce Maior

Por mais que eu quisesse escrever, ou recitar, as palavras mais bonitas, tocar as músicas que nos enchem verdadeiramente a alma, pintar quadros ou tirar fotografias que realçassem o melhor que há na natureza humana... tudo isso seria manifestamente insuficiente face ao esplendor, às qualidades humanas (e divinas) de um Doce que, por onde passa, deixa, de forma indelével, a sua marca... Maior.

Num Mundo que tolera o cinzento, que premeia a vulgaridade, que tem inveja do mérito e se refugia no egoísmo, o simples facto de podermos conhecer as virtudes de uma pessoa como Doce Maior é motivo mais do que suficiente para continuarmos a acreditar que é possível fazer de cada canto onde vivemos um local melhor e, ao mesmo tempo, torná-lo sustentável para quem nos suceda nesta vida.

Dizer que Doce Maior modificou a minha vida é dizer muito pouco. Da leitura atenta dos seus escritos... todos «perfumados» de beleza, elegância, sensibilidade, ternura, carinho, sentido de justiça... tornei-me mais culto (ou menos ignorante, conforme a perspectiva), aprendendo a dar valor a aspectos que desprezava. Com Doce Maior comecei a frequentar as estrelas que brilham esquecendo que voava em Terra firme... E, por exemplo, com ela visitei a exposição de Picasso na Oca... estando a milhares de milhas de distância de São Paulo.

Sei que Doce Maior é uma pessoa de bem. Que pratica o bem e, fazendo por isso, deseja um Mundo melhor. E quantos poderão orgulhar-se de merecer tal epíteto?

Podemos conhecer muitas pessoas na vida, mas há um número restrito que consegue um lugar na nossa alma e no nosso coração. Na alma lusitana de um Pássaro Distante tem lugar, cativo, uma paulista, Presidente do Clube das Lindas. E estão certos, todos os que dizem o que eu subscrevo: Doce Maior é uma fada!

Obrigado por existires, Doce Maior

Postado por Pássaro em 01:52 PM | Comentários (0)

abril 02, 2004

Ode à Lua

Para relembrar esta:

Ode à Lua (Pássaro Distante, 02-04-2004)

I

Lua que definha o próprio Sol
Invadindo frágil peito com feitiço:
Entrelaça o corpo à alma com anzol,
Sugando este meu ser tão movediço.

Subverte a virgem luz do Sol nascente
Com alvíssaras, promessas e ilusões,
Seduzindo-o até ficar dormente
De prazer, ora rendido às tentações.

Lua ingrata excluída desta redoma
Ou antro, azul, de pouca humanidade
Onde quem não é amigo nos engoma
Ou nos mata, com total impunidade.

Linda Lua que «só espalha sofrimento»
Como cantava Vinícius de Moraes:
A ausência é a saudade em movimento;
Os soluços são mel nas cordas vocais.

II

Lua cheia cintilante de projectos,
E quimeras subtilmente abrilhantadas
Pelas almas aquecidas com afectos
Trocados em tão densas madrugadas.

Meia-Lua que encobre a frustração
Pois sonhara ser estrela ou belo astro.
Infrutífera mostrou-se tal pretensão.
Castigaram-na. Ao invés tornou-se emplastro.

É vê-la no seu quarto, minguante:
Negrume enraivecido na calada,
Vingando-se num Pássaro Distante
Perdido na esquina da alvorada.

E no seu quarto crescente de inveja
Inebria-nos com aquele brilho hostil,
Confundindo a lucidez, que lhe boceja
E ilude as paixões de tom febril.

III

Lua que nos mostra o seu sabor:
Leite magro com aroma adocicado,
Aditivo que, num ápice, é rancor
Ou inveja em licor adulterado.

Mulher estéril que se mostra prepotente,
Que confunde o meu amor com servidão
E que exibe o seu veneno, impaciente,
Quando eu lhe faço frente e digo: não!

Arredada fatalmente do planeta,
Como Eva, expulsa do Paraíso,
Irredutível aos avisos do profeta:
Não mudando quando mais era preciso.

Lua triste por quem sinto alguma pena
Neste meu jeito de ser amolecido
Pela vida, que nunca quis ser serena
E maltrata quem por ela é vencido.

IV

Isolada na distância gravitante,
Qual presídio de suprema segurança,
O teu escuro é lagoa itinerante
Onde afogo cada sonho na lembrança.

Nunca eu te ofereci fala concreta
Como a que ora te dirijo nesta forma,
Impedido duma ligação directa
Ao teu corpo, cujo brilho me deforma.

Teu castigo consta do itinerário
Semelhante às travessias do deserto:
Queres o Sol ao pé e a qualquer horário;
Eu limito-me a querer o Mar por perto.

Não podes alucinar o meu semblante
Tal como a luz duma estrela excitada
Que, num ímpeto deveras empolgante,
Se revê neste meu porto, acarinhada.

V

Fica entre essas tais constelações,
E bebe o brilho solar de tom nocturno,
Pois de nada valerão as orações
Que te tornem num dos anéis de Saturno.

Brilho que, para mim, é mero foco
Ténue, qual clarão dum candeeiro.
É que: entre um quinto ou sexto copo
Pouco serve a luz do travesseiro.

Lua cheia de vazio, ou sem conversa,
És reguengo de diversos meteoros.
Antes foras tal e qual tapete persa
Mas agora tens buracos nos teus poros.

O teu colo fora albergue de astronauta
Quando os sonhos projectavam foguetões
Iludidos por uma guerra incauta...
É que as estrelas não protegem os vilões!

Postado por Pássaro em 12:34 PM | Comentários (4)