Embalei-me na tua dança estrelar
Que, do sonho, se transbordou intacta,
Escorrendo neste peito, sem cessar,
Com o qual teve fusão imediata.
Acompanha-a teu cheiro de mulher:
Alucinante ópio de mistério!
Que me envolve e faz de mim o que quiser...
Simples súbdito de ousado ministério.
Ópio penetrando o tecto da alma,
Ampliando os seus sons num labirinto
De palavras e de notas excomungadas.
Libertando, enfim, tudo o que eu sinto
E escondia, nessas noites agitadas,
A tal ponto de só ter, no rosto, a calma.
II... III... IV
O meu corpo é um trem descarrilado
Pela força de tal sonho eloquente,
Colidindo na Estação, porque dopado
Pelo cheiro do teu ópio envolvente.
Desabou-se a «Estação da Harmonia»!
À qual teimava, dia a dia, regressar,
Ignorando o som da tua magia,
Voz das Estrelas que eu queria ocultar.
No descampado dessa Estação, prostrada,
Acampam, numa tenda improvisada,
As três filhas deste Tempo implacável.
Tua dança já não é mais um poema,
Transformou-se num intemporal dilema,
Vertiginoso, de contorno imensurável...
No conforto da maresia: um abraço,
Reconforto para teu corpo inquieto,
Movimento que aconchego, passo a passo,
Com carinho, com ternura e com afecto.
Corpos presos na doçura dum momento
Em que os espíritos se acolhem livremente
E, envoltos no sal do contentamento,
Dançam muito... nesse chão de areia ardente.
Pouco a pouco suas vozes se misturam,
Calam males e das feridas se curam,
Aquecidas nesse sol que bem vigia.
Junto ao mar conseguem a grande virtude:
Mãos unidas, já sem nada que os perturbe...
E seus olhos... polvilhados de alegria.
(Pássaro Distante, em Lá menor à sétima)