janeiro 23, 2004

A um pai (Pássaro Distante)

Se falo do teu ponto de partida
- Aquilo que alguns chamam de presente -
Eu calo e ponho-me de fugida,
Voando tão silenciosamente.

Nas ondas mudas dum olhar magoado
Embala a modelada frequência
Dum ser que só se sente bem deitado
E faz das almofadas a vivência.

Em lençóis que encobrem a covardia
Duma voz, que perdeu estando calada,
Deita-se o líquido duma agonia
E por lá fica sendo encorajada.

As mantas que, outrora, eram quentes
E hoje são só mantas de retalho
Não aquecem neurónios doentes
Que impedem dares valor ao trabalho.

Sair de casa torna-se penoso;
Sair do quarto é uma «tourada».
Não ligas a quem se mostra choroso
E sofre com a «postura do nada».

E qualquer dia fazem «bibelot»
Das falas que tu jamais proferiste.
E nas teias de aranha de «tricot»
Urdem nas omissões que permitiste.

É derrubado o prato da balança
Nas horas que a justiça insistia
Numa figura que desse esperança
De manter uma luz tão luzidia.

O brilho dessa luz que eu esperava
Ofuscou-se num mero candeeiro
De cómoda que, incómoda, apagava
Invejando o sonho do travesseiro.

Meu pai: que, por ti, modelei a dor
E senti os teus vícios na face,
Em mim totais ausências de calor,
Não posso tolerar o teu enlace

Ou pacto com a falta de coragem
De quem suspira pelo fim da linha
E faz de tudo por essa viagem:
Até a sua alma já definha.

Não deixes de viver cada momento
Como se fosse uma bela canção.
Tu que tens o dom de encantamento
E deste filho uma grande afeição.

Viver assim até a mim já custa:
Vegetar é o termo apropriado.
Tens de saber o que é que não se ajusta
E torna o teu humor guilhotinado.

Escuta este pedido de ajuda
Por ti, por mim e por quem mais te queira,
Qual grito vindo duma boca muda
Que chora por viveres dessa maneira...

Postado por Pássaro em 01:59 PM | Comentários (0)

janeiro 20, 2004

Pousando em vários galhos (Pássaro Distante)

Navega nesta água que transborda
Do lago do meu peito fundo e preso
De sonhos que precisam duma borda
Que ampare quem não quer ficar ileso.

Viaja junto à estrada que me nega
O ponto de partida obrigatório
Girando pela faixa que sossega
Apenas com um som inquisitório.

Abraça a ponte que te viu partir
Eivada dumas nuvens sem tempero,
Aquelas que, fazendo-te sorrir,
Mostraram como é belo o desespero.

Afaga a fome nesse hotel sombrio
Que despe a tua máscara ingrata
Que ao espelho vê a luz do arrepio:
Cinzenta como a vida que te enfarta.

Aquece o lume da indignação,
Aceso pelas brasas do destino
Que queimam a mais bela oração
Imposta desde um berço de menino.

Habita a maresia que te salga
Com gotas de oceano sorridente
Que, brando, nem sequer fere, ou galga,
Um porto ou cais amigo e confidente.

Onera esse teu corpo encardido
De cheiros de animais de outras bandas,
Aqueles que sussurram ao ouvido:
Prometem ilusões, ou seja, tangas!

Não esqueças de piscar o olho à lua
Que encobre o gosto pelo descaminho
E mostra o rosto que no mar flutua
À espera de um dia ficar sozinho.

Ampara a queda de uma estrela rara
Que veio ao teu caminho, sem juízo
E fez a tua vida negra e cara
Cegando no que mais era preciso.

Vislumbra no meu ser funesta caixa
De sonho ou projecto mal montado
Visível nas horas de maré baixa
Mas sempre, ou quase sempre, afogado.

Irrita aquele que te quer amar
E põe à prova o seu sentimento
Sabes, então, que não vai fraquejar
Quando a tormenta seja algum tormento.

Atura-me esse homem embrutecido
Que arrota dinheiro pelas entranhas.
É o preço de apenas teres querido
Dizer lamúrias ou viver em manhas.

Isola essa mulher autoritária
Querendo prender tudo à sua volta:
Acabou numa casa mortuária
De onde recebeu divina escolta.

Vagueia nesses bares de segunda
E mostra ao copo o gelo que te acalma.
E cala essa garganta moribunda
Que não sabe o caminho para a alma.

Promete àquele que te viu nascer
E fez de tristes sombras teu futuro
Que não farás, a quem te suceder,
O mesmo que te fizeram no escuro.

Irrita essa Ministra das Finanças
Que aliviou o bolso dessas calças,
Agora preenchido com livranças
E dívidas penduradas nas alças.

Despreza essa mulher que te maltrata
Cobrando o teu sossego com maus jeitos
E faz da tua vida mera errata
Dum livro de lamúrias e defeitos.

Regista essa menina que te adora
Elevando o teu nome com orgulho,
Acompanhando-te na vida fora,
Fazendo do teu ser um belo embrulho.

Invade o centro do teu hemisfério
E mostra-lhe o que está angustiado:
Aquilo que já fora um caso sério
E vive num semblante agoniado.

Ilustra-me o teu sonho mais perfeito
Com a pauta da mais linda melodia
Que ecoa mesmo em ar tão rarefeito
De gente que não sabe o que é poesia!

Postado por Pássaro em 02:00 PM | Comentários (0)

janeiro 15, 2004

Pássaro em hora de adeus

Não me venhas com insultos,
Impropérios dos incultos,
Indignos desse teu ser.
Nem me venhas com injúrias,
Parceiras dessas fúrias,
Com que queres me ofender.

Não arranjes maus motivos,
Meros justificativos,
Para as tuas atitudes.
Nem prendas, nessa tormenta,
Um pássaro que se afugenta
Mal vê os momentos rudes.

O teu ser autoritário
Excedeu-se num rosário
De torpes lamentações.
Mas não vês, minha querida,
Que eu, para a minha vida,
Não dou justificações?

Nem te dei esse direito,
No meu tolerante jeito
De aceitar o que me falam.
Tudo... menos as ofensas
Que se esbatem nestas crenças:
Dão a face; e males calam.

Liberdade em duas vias:
Se os voos não aprecias
Pouco mais posso dizer.
Fica o gosto do amargo,
O desgosto como encargo,
Que embargo e vou esquecer.

Foi, em tempos, minha oferta:
Esta alma de poeta
Ou a dum mero aprendiz.
Querias um caçador?
Então não sou o teu amor,
Não posso fazer-te feliz!

Postado por Pássaro em 02:02 PM | Comentários (0)

Veja e Reveja Bem Meu Bem

Veja bem meu bem
(Marcelo Camelo)

Veja bem meu bem
Sinto te informar
Que arranjei alguém
Pra me confortar
Esse alguém está
Quando você sai
E eu só posso crer
Pois sem ter você
Nestes braços tais.

Veja bem amor
Onde está você
Somos no papel
Mas não no viver
Viajar sem mim
Me deixar assim
Tive que arranjar
Alguém pra passar
Os dias ruins.

Enquanto isso
Navegando eu vou sem paz
Sem ter um porto
Quase morto sem um cais
E eu nunca vou
Te esquecer amor
Mas a solidão
Deixa o coração
Nesse leva e traz.

Veja bem além
Destes factos vis
Saiba: traições
São bem mais sutis
Se eu te troquei
Não foi por maldade
Amor veja bem
Arranjei alguém
Chamado saudade.

Reveja bem meu bem
(Pássaro Distante)

Veja bem meu bem
Vim comunicar
Que o texto que vem
Eu não vou postar.
Ele fica lá
Enquanto não cai
Seu jeito de ser
Que saiba aquecer
Olhos irreais.

Veja que pavor:
Como posso ver
Este seu papel
Que todos vão ler?
Escrito assim...
Divagando, enfim:
Tive que acabar,
Meu verso deixar
Sem o seu cetim:

Tão movediço,
Afundando versos tais!
Que desconforto
Para letras virtuais.
E o que é que eu sou?
Levo minha dor
Na palma da mão.
Esta confusão
Não desejo mais.

Já não há ninguém
Que seja aprendiz,
Fira corações
Como um infeliz.
Se de ti voei
Por necessidade
Saiba você: quem
Não se sente bem
Vive sem vontade.

Postado por Pássaro em 10:26 AM | Comentários (0)

janeiro 14, 2004

Desenquadrada espiral

Não consegues encaixar,
Nesse teu raciocinar,
O jeito de me sentir.
E assustas-te com isso!
Nasce em ti um rebuliço
Que te urge reprimir.

É como se eu fosse um pintor,
Qual artificie, inovador,
De nova corrente ou escola.
E, sem tentares conhecer
O «novo» que possa trazer,
Isolas-me numa... gaiola?

Limitas-te a comparar
E, ao meu ser, analisar
À luz dos teus pré conceitos.
Neles só tenho a perder
Pois não conseguirás ver
Quaisquer virtudes, só defeitos.

Queres manter tua distância
Alternada por uma ânsia
De totais esclarecimentos.
Se me esquivo: soltas chamas,
Esquecendo-te que me enganas,
Ferindo os meus sentimentos.

Olhos que queimam um rosto
Escondido em entreposto
De inestético brilho.
Não sei o que queres de mim
E porque me tratas assim
Ao longo do nosso trilho.

Mas perdes-te no meu cheiro
Que te enlouquece, primeiro,
Antes de vir a razão...
Cada carícia trocada
E cada emoção partilhada
Baralham a tua visão.

Nesta espiral sem ter fim
Acaba por ser ruim
Ver cada dia nascer.
Já prefiro tua ausência,
Antes minha penitência,
A um inútil sofrer.

Postado por Pássaro em 02:04 PM | Comentários (0)

janeiro 06, 2004

Carta ao Tom 2004

Há 30 anos atrás...

Carta ao Tom 74
(Vinícius de Moraes)

Rua Nascimento Silva, cento e sete,
Você ensinando para Elizete
As canções de Canção do amor demais.

Lembra que tempo feliz, Ah! Que saudade,
Ipanema era só felicidade,
Era como se o amor doesse em paz.

Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu

Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho do céu e o Redentor

É meu amigo só resta uma certeza:
É preciso acabar com essa tristeza,
É preciso inventar de novo o amor.

30 anos depois...

Carta ao Tom 2004
(Pássaro Distante, que me perdoem a ousadia)

Lua que, entre o meu sol, se intromete
E, para os meus sonhos, cobra frete
Com receio de voos especiais,

Esses que levam meu corpo, com vaidade,
Para junto da tal eternidade
Onde brilha Vinícius de Moraes.

Mas o famoso poeta não queria
Afastar a letra da melodia
Desse Tom que a estrela não esqueceu.

Lembrando os sons e as cores de aguarela,
Escondendo a tristeza desta tela
Encobrindo-a num véu ou cobertor.

É meu amigo, perante a gentileza
Do poeta amado, nesta mesa
É preciso lembrar o seu valor.

Postado por Pássaro em 02:05 PM | Comentários (0)

janeiro 05, 2004

Desejos

Desejava partilhar a minha arte,
Assim como suas limitações,
Com aqueles que não me põem de parte
E dão vida aos meus voos e canções...

Desejava povoar os teus sentidos
Polvilhando-os com carinho e paixão,
Semeando em teus olhos derretidos
O calor, o sonho e a ilusão.

Desejava carregar esse teu peito
Com a firmeza de quem tem esperança
E com carícias próprias do meu jeito
De emprestar ao vento singela dança.

Desejava cultivar no teu cabelo
As massagens divinais da Antiguidade,
Massajando e amparando cada pelo
Até ao culminar da ansiedade.

Desejava cativar o teu olhar
Com o brilho de meus olhos enjeitados.
E que, juntos, te pudessem ajudar
Nos dias que são tão mal suportados.

Desejava emprestar estes meus ombros
Como panteão para as tuas dores:
E que neles fizesses os escombros
Dos negrumes que violam tuas cores.

Desejava amparar-te nestas pernas,
Ainda que crivadas de varizes,
Desenhando-te as emoções eternas
Que fizessem esquecer as cicatrizes.

Desejava levitar a tua alma
Com as penas destas asas emotivas
Escondendo as ausências de calma
Das nuvens que se mostram cansativas.

Desejava inundar o teu sorriso
Com as voltas de suave inspiração,
Regadas com um «tinto» bem preciso,
Doseadas com assombros de emoção.

Desejava suportar a tua cruz
Ou bem aliviar o teu encargo
Ignorando o que essa avestruz
Debita em tom grave e amargo.

Desejava cancelar esta ausência
E mostrar que poderia ser mais útil,
Não ligando ao que, a uns, será premência
E que a outros, como eu, será, só, fútil.

Desejava partilhar-te quase tudo
Aquilo que é possível partilhar;
Rasgar essas fronteiras do absurdo
Que impedem os humanos de voar.

Desejava tornar belo o que é horrível,
E de esterilizar qualquer doença.
Transformar todo o meu feio apetecível
E mover-me num mundo de boa crença.

Desejava fustigar a tua dor
Com os acordes destas notas musicais
Aninhadas nos soluços de um tambor
E nas letras de Vinícius de Moraes.

Postado por Pássaro em 02:06 PM | Comentários (0)

janeiro 03, 2004

Para uma actriz

Hoje sou Uirapuru
Voando pelo teu avesso:
Imaginando o «eu e tu»
Em versos que não esqueço.

Hoje estou bem mais alegre
Com a tua aparição.
Não há canto em que sossegue
Sem a comunicação.

Vejo em dois mil e quatro
Esse teu ser fascinante
Às portas do meu Teatro
De lugar itinerante.

Imagino-te num palco
Declamando esses poemas,
Camuflando em pó talco
Tuas queixas e dilemas.

Imagino-me sentado
Como espectador atento,
Mais diria: emocionado
Com o teu grande talento.

Os teus olhos: imagino
Brilhando na escuridão,
Cativando este menino
Que te abre o coração.

Que te atira uma rosa,
Para cair junto aos teus pés.
Rosa como tu: viçosa
Nesse avesso ou invés.

Recebes tal oferenda
E olhas o espectador:
Agradecendo a prenda;
Chamando-o para actor:

Musicando os teus poemas
Em bandolim ou piano,
Tocando «Mulheres de Atenas»,
De exemplo sem engano.

Vais buscá-lo à plateia
E trazes de braço dado
Alguém que te saboreia
Em sonhos ou acordado.

E juntos vão cativando,
Com esse «show» imprevisto,
Um público delirando,
Afirmando: «não desisto!»

«Não vamos daqui para fora
Dum espectáculo fortuito,
Sonhado em boa hora
E do qual gostamos muito!»

E perante esse desejo
Tal actor e tal actriz
Prolongaram o ensejo
De um público feliz.

Madrugada emocionante
Na memória, retida,
Dum futuro excitante,
Fascinante e sem medida!

- Já vamos «fechar a loja»?
- Sim. Baixaram as cortinas
Zangadas com a despoja,
Como mimadas meninas.

Pois também queriam mais
Suspensas na emoção,
Vivendo, como mortais,
Tão singular ocasião.

E «não mais que de repente»
Acordara deste sonho
Querendo seguir em frente
Num horizonte risonho.

Actriz cheia de carinho:
Eu queria dar-te a mão,
Um abraço e um miminho
Do fundo do coração.

Postado por Pássaro em 02:07 PM | Comentários (0)

janeiro 02, 2004

Recado de Uirapuru

Sou um Pássaro triste
Da floresta mágica
Que ao homem resiste...
Até à hora trágica?

Eu canto à minha floresta
Inundando o coração
De um homem que não presta
E no lucro vê razão.

Ser ruim do asfalto
Em busca do ganha-pão:
Vá viver para o Planalto!
Deixe em paz minha oração!

Não mexa nas árvores!
Nem mate os animais!
Empalhados? Mármores
Dos teus pecados mortais?

Floresta Amazónia:
Musa deste meu voar,
Mesmo com a insónia
Dum carrasco a matar.

Dessa metalurgia
Que fabricou um Lula:
Emprego é iguaria?
E Amazónia? Gula?

Não queira ser curioso
Confirmando um acto
Dalgum «lobby» nervoso
Que nos «junte» num prato!

Meu canto não é novo
E eu fico triste assim
Face à «surdez» do povo
Herdeiro de Tom Jobim...

Já ouviram «Passarim»?

Postado por Pássaro em 02:08 PM | Comentários (0)