Não sabemos o que nos põem a comer
Num mundo onde só interessa vender,
Onde somos a tal «carne para canhão».
Para as doenças vendem-nos remédios
E depois colocam-nos em prédios
De modo a cobrar, também, a operação.
Pagamos, assim mesmo, a triplicar.
Quase que não podemos respirar
Este ar cada vez mais poluído.
E ninguém faz rigorosamente nada!
Mas que belas «cabeças de almofada»:
Políticos, parasitas sem abrigo!
E, por fim, estamos sós com os amigos
Sofremos, rezamos como uns mendigos
Pela sua franca recuperação.
Tudo aquilo que poderíamos sonhar
Deixou de fazer sentido realizar
Nos momentos de tristeza e devoção.
Minha amiga: não desista dessa luta!
Reaja contra essa doença bruta
Que só cobardemente mostra a cara.
Haveremos de brindar com vinho e mel
Escreveremos muito, tanto, no papel
Os versos da saúde que te ampara
Não te posso prometer a vida «airada»
Sonhada neste olhar independente
Suportando cada tala implantada
Pela tal moralidade subjacente.
Não te posso prometer a vida (é) bela
Aquela que tu sonhas e retratas
Num jogo de frustrada aguarela
De cores rudes onde me maltratas.
Não te posso prometer a vida fácil
Exibida no teu meio social
Que pouco ou nada tem de bom e dócil
E brinda à injustiça entre igual.
Não te posso prometer a vida farta
Recheada de riqueza e de conforto.
Da mesma sou o Joker feito carta
Dum baralho que me deixa quase torto.
Não te posso prometer a vida fútil
Ancorada em navio que não navega
Vivida como complemento inútil
A quem quer estar quieto e não sossega.
Não te posso prometer a vida ousada
Que sonhaste, acordada, no teu íntimo
E que, um dia, concluíste, baralhada
Não haver, em mim, parcela ou um ínfimo.
Não te posso prometer a vida pura
Quando a esperança inundava a ilusão
Até cair doente e já sem cura
Alastrando-se ao confim do coração.
Não te posso prometer a vida rica
De fadas, festas, fitas postas, luta
Por dinheiro que, em mim, não se barrica:
Vira lata, pega, apita em voz corrupta.
Não te posso prometer a simples vida
Separada dos complexos pensamentos
Percorridos numa longa avenida,
Vividos entre chuvas, sol e ventos.
Não te posso prometer o «cu de Judas»...
De promessas ando farto e mal refeito.
Nem espero que algum dia me acudas
Nas agruras deste peito rarefeito.
Eu queria destapar essa agonia
Com os voos desta imaginação
Que se esconde, tal e qual o fim do dia,
Entre os ventos da desorientação.
Eu queria demonstrar minha amizade
E poder-te transmitir «aquele abraço»
Traduzido nas letras desta vontade
Induzida, risco a risco, traço a traço.
Eu queria dar-te um pouco do meu colo
Cantando-te as mais lindas melodias,
Recitando-te os poemas do meu solo,
Aquecendo a lucidez de noite fria.
Eu queria ser um Pássaro presente
Que meus amigos pudessem contar.
Eu sinto-me, por vezes, tão doente
E não tenho mesmo jeito de agradar.
Eu queria dar um pouco mais de alento
A quem olha mas não sabe mais sonhar,
Carregando uma vida de tormento,
Compensada no calor que tem para dar.
Eu queria transformar o teu avesso
Que espelha muito bem esse teu verso,
Modificando o meu, eu não me esqueço.
Verso Avesso
:: ou apenas Reverso?
Não te posso prometer as luas cheias
Preenchidas com tão nobres sentimentos
Com palavras e com sons dessas colcheias
Destinadas a cantar os meus lamentos.
Não te posso prometer a minha estrada
- Ora larga, ora densa, ora estreita -
Com trechos de via inacabada
E de recta que tem pouco de direita.
Não te posso prometer esta levada
Que se alarga, que se ajusta, que se ajeita
Aos passos de tão tensa caminhada
E aos olhos de quem passa e não suspeita.
Não te posso prometer a luz celeste
Como ponte para o rio dum Além.
Quando muito tens o meu fruto silvestre
Inundado de agruras que não valem.
Não te posso prometer o meu amor:
Volúvel, volátil e sorrateiro.
Ou instável como um grande elevador
Que dum projecto fez caixão e travesseiro.
Não te posso prometer a madrugada
Tão pouco o renascer da tua vida
Que, um dia, julgaras predestinada
Até hoje, em que a dás como perdida.
Não te posso prometer a vida errante
Só porque da tua estás fatigada.
Nos teus sonhos serei mero viajante
A quem negas partilhar a almofada.
Não te posso prometer o belo poema
Encharcado de negrume e de ilusão
Inundando por completo o melhor tema
Residente neste triste coração.
Não te posso prometer ser regular
Nos gestos, silêncios e atitudes...
Sou um pássaro aprendendo a esvoaçar
Em ventos de inconstantes quietudes.
Não te posso prometer a luz do dia
Em que pretendes regular e cumpridor
Um espírito eivado de euforia
Que rejeita congelar o seu calor.
Não te posso prometer o pôr-do-sol
Encravado nestes olhos de cansaço:
Confundindo esse astro com um farol;
Caminhando no rumo do embaraço.
Não te posso prometer a minha estrela,
Parceira infiel de caminhada.
Foram anos e anos sem poder vê-la
Ao ponto de ficar desacreditada.
Não te posso prometer esta pessoa
Mesmo que te apoderes da carcaça.
Minha alma muito pouco tem de boa
E muito menos terá a sua graça.
Não te posso prometer minha verdade.
Receio que te sintas ultrajada.
Carrego-a para a tal eternidade
Para que nunca seja revelada.
Não te posso prometer fidelidade
Do meu espírito, alma ou matéria
Infinito de horizonte onde não cabe
Essa regra de cidade pouco séria.
Nesta hora de Natal
O canto de um Pássaro,
De importância relativa,
Espalha-se por um areal
Em busca de um Ser raro:
Doce Luz Estrela Altiva!
Nesta meia-noite mágica,
Em que nuns acaba o encanto
E noutros começa o feitiço,
Saudade é palavra trágica:
Deixo minhas penas no canto
E às asas dou um sumiço.
Ave de canto desafinado
Pelas ondas do mar abafado
Numa noite sem o brilho da lua,
Sem a estrela que dá sorte,
Aquela que mostra o norte
A quem sobrevoa a rua.
Sou orquestra sem maestro.
Não sou dextro ou ambidextro
Nesta escrita improvisada.
Que regista a tua ausência
E protesta, sem veemência,
Nesta surda madrugada.
Onde está aquela estrela
Que, em sonhos, faz voar
E, de dia, nos absorve?
Alguém consegue vê-la?
Nem mesmo a alucinar
Voos de quem não se move?
Com arte, mas sem esgrima,
Recebi, foi «prenda minha»,
Um Vinícius de noventa.
«Pela Luz Dos Olhos Teus»
Vem consolar os meus,
De saudade impacienta.
A propósito de «bigamia», em Setembro estive numa festa de aniversário onde me sentaram numa mesa que se revelaria «do outro mundo» (e a propósito, também, de assombração...): um bem conservado casal de australianos, outro casal português, nós, Pássaro, Ave e Cria desinquieta como deve ser, e uma senhora idosa muito sorridente, que não abria a boca, apenas sorria.
A língua oficial utilizada foi o inglês, dada a natureza hospitaleira do povo madeirense face a quem visita esta Ilha. E nesse jantar acabámos por fazer uma «viagem histórica» desde os nossos dias até à idade Média. Tudo porque um dos convivas era uma escritora (casada com um Leitor da Universidade de Pisa, presente à mesa) que decidira mudar de nome e aduzia os argumentos que a levaram a tomar tal decisão. Aqui chegados não resisto a reproduzir o final desse diálogo na língua de «Sua Majestade» acrescido de tradução livre.
Leitor - My wife found a way to make me a widow in life... (Minha mulher arranjou uma forma de me tornar viúvo em vida)
Sem deixar escapar o momento:
Pássaro - Or a bigamist... (Ou num bígamo...)
Gargalhada geral. Os australianos deliraram e o Leitor puxou de um bloco de apontamentos:
- Tenho de anotar essa!
Quanto à senhora idosa que nada falava e que apenas sorria¿ no final do jantar fomos esclarecidos pela anfitriã da razão: «ela não sabe falar inglês...»
Uma Mesa Surrealista.
Com que olhos conquistaste
Aqueles que bem te queriam,
Os que, um dia, desnudaste
E, em ti, se perderiam?
Com que olhos me beijaste
Na nossa primeira vez?
E que troféu hasteaste
Ao tirares-me os três?
Com que olhos te apaixonaste
Naquele vão de escada?
Onde nos penduraste
Numa louca madrugada.
Com que olhos suportaste
Aquilo que em mim viste:
A promessa a «meia haste»
Em que um dia te iludiste?
Com que olhos humilhaste
O íntimo dos olhos meus?
E que mágoa recordaste
Nesta hora do adeus?
Com que olhos debochaste
Na minha melancolia?
Que presente fulminaste
Sem qualquer «Ordem do Dia»?
Com que olhos nos manchaste
Em projectos de futuro,
Acenados, «quanto baste»,
Até à hora do apuro.
Com que olhos inundaste
As lágrimas, demoradas,
Dum peito que te fartaste?
E, do teu, mal projectadas.
Com que olhos iluminaste
Aqueles que te queriam
E que, por fim, condenaste
Só porque nada diziam.
Com que olhos me feriste
Com a tua lucidez?
Satisfeita? Porque atingiste
A minha insensatez?
Com que olhos bloqueaste
Essa estrada da esperança?
Em que curva torneaste,
Com desdém, a nossa herança?
Com que olhos impediste
A nossa felicidade?
Quando tudo ficou triste
E nada sobrou, na verdade...
Com que olhos marcaste
O prenúncio de nós dois?
E do ser que educaste
Contradizendo-me depois?
Com que olhos me sonhaste
Na noite do desencanto?
Quando, dormindo, acordaste
E te expulsaste do manto.
Com que olhos me deixaste?
Com mágoa e ressentimento?
Perguntas se provocaste
Todo este meu tormento?
E com que olhos buscaste,
Nas palavras que não leste,
As ideias que compraste,
Com que não te defendeste?
Esqueci-me de Nilze Carvalho
E de seu «Chorinho de Ouro»
Causando tanto atrapalho
Nos cantos de cada meu olho.
Pássaro fosse «Pomba Branca»
Voando em busca da «Pax»
Voaria de qualquer Zona Franca,
Da Madeira ou de Manaus,
E, em galhos ou em paus,
Pousando, para ouvir o eterno «Max».
E porque a música clássica
Parecia ser meu «parente pobre»
Eis, Julinho, de forma básica,
A minha amostra mais nobre:
Vivaldi e as «Quatro Estações»
Onde uma «Sonata ao Luar»
Faz brilhar essas nossas emoções
Que Beethoven nos proporcionar.
Mozart! Wolfgang Amadeus,
Virtuoso, no meu cognome,
Séculos fascinando com os seus
Golpes de «Génios Disforme».
Ah! O «Lago dos Cisnes»!
E que dizer do «Quebra-Nozes»?
Que teu grande amor afines
E que Tchaikovsky cale as vozes.
Que pianista recomendo?
Permitam-me ser parcial:
Na Maria João Pires «me prendo»,
Esse «puro sangue» de Portugal!
E Julinho, seja sempre verdadeiro
Ou, quando aprender Inglês, «true».
Escute Gershwin no seu travesseiro
Criador da «Raphsody In Blue».
Tens aqui a minha amostra
Em jeito de brincadeira séria
Justificando uma aposta
Ou introdução nesta matéria.
E Ninguém quer saber disso!
(Dedicado a «Julinho», «Imperador» de Belém do Pará, com carinho)
Se Julinho é triste
Por «não ter» nem pai nem mãe,
Que encaminhe essa tristeza
Para a dor de um violão.
Como eu dirijo a minha
(Que ainda persiste)
Para esta escrita, proscrita,
No recanto desta mesa,
Como forma de compensação.
Se o Julinho é rebelde
E um pouco revoltado
Que descubra a harmonia
E a desarmonia, também,
Nas cordas ou num teclado
Tocando, ou ouvindo alguém.
Ou, se ninguém ouvir, grite: «Help!»
Eduque-se pela música
Santuário da rebeldia,
A liberdade absoluta
Para melhorar seu dia-a-dia.
Dediquem-lhe todo o carinho,
Com firmeza e autoridade,
Para que ele saiba o caminho
Ao chegar à puberdade.
Mostrem-lhe os sons de Jobim,
De Vinícius e Toquinho,
Assim como a arte
De Francisco Buarque
E essas vozes de cetim,
Que me animam um pouquinho.
Sem ordem de preferência,
Que me perdoem alguma ausência:
Miúcha, ah! Meu âmago se repuxa!...
Gal Costa, ao vivo (en)cantando Jobim...
Paula Morelenbaum,
(quando volta ao Funchal para mais um?)
Acompanhando o Mestre em «Passarim»
E no duplo álbum «Inédito»
Que eu (não) comprei a crédito!
Zizi Possi, Ó «Pedaço de Mim»¿
Que me deixa assim:
«Sentimental, eu sou...»
Largue o canto italiano
E venha «nascer de novo»!
«Não vou»?!
Você rejeita o seu lusitano
E honrado Povo?
Maria Bethânia, chorando Noel Rosa...
E cantando em prosa
Ou em verso
(«Nosso amor que eu não mereço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar, nem violão») ,
Ou, quando converso,
Com a, de Pixinguinha, «Rosa»,
Na voz de Marisa Monte,
E como é tão gostosa,
Mas em falta com a Bossanova:
«Pecado é lhe deixar de molho»...
Viu? Marisa, Eu estou de olho!
Veja se aprova!
Adriana Calcanhotto,
Com seu jeitinho maroto...
Elis Regina
(E, agora, sua menina)
E Nara Leão,
Que entre nós já não estão,
Mas habitam no meu coração...
Alcione, há pouco tempo na Madeira...
Num palco com a poeira
Do Chão da Lagoa
Em laranja festa
Em tom «Marron», que ecoa
Na Laurissilva floresta,
Património que a Humanidade protesta...
Marília Medalha,
Maria Creuza:
Deus nos valha!
Onde estão vocês agora?
Pergunta-vos um bandolim que chora...
Como quem faz prece a Deusa...
Bebel Gilberto,
Tão longe e tão perto...
No meu pranto aberto,
Por certo.
Que um dia quis
Ser «Mais Feliz»!
Nana Caymmi, herdeira de Dorival:
«É Doce Morrer no Mar»...
«Junte tudo o que é seu»...
Em Brasil ou Portugal...
Em declínio ou apogeu...
Com tanto amor para dar...
Leila Pinheiro, que te conheci pessoalmente,
Com a Graça de Deus e não só...
E nossas fotos? Francamente...
Perdidas? Ganhando pó?
«Amor é Bossanova, Sexo é Carnaval»
Disse, de «Saia Justa»
E de forma vetusta,
No seu novo musical.
Mas, Rita Lee,
Que «Mania de Você»:
O meu Brasil é aqui!
Ou será que ninguém vê?
Julinho, anjinho:
Dê um saltinho
No Atlântico,
Para belezas que não desconheça,
Aquelas cujo cântico
Recheia a minha cabeça:
Cesária Évora, em Paris ou na Madeira,
«Bem te vi», com meu Amor, na vida inteira...
Dulce Pontes, do rio que sorriu,
Para não chorar,
À beira-mar...
Com dedinho de Daniela (Mercury),
De cravo e canela:
«Para quem não sabe, sorrio
A cantar...»
Em «Feijão com Arroz»
Que não me indispôs.
Valha-me Deus!
«Madredeus»,
Teresa Salgueiro,
Voz do Mundo inteiro,
Espírito anti-guerreiro
Que me faz ordeiro.
Amália Rodrigues,
Na dor de cada «Gaivota»
Deste bandolim que toca
(Seu fado, não duvides)
E voa...
Como Eugénia Melo e Castro,
Geninha, que por esses lados soa...
Na superfície ou no poço...
Que o diga Ney Matogrosso!
Sara Tavares,
Para, quem sabe, amares?
Percorridos os mares
Da tua juventude
Que se ilude
Com a plenitude.
Lula Pena,
Diva de voz grave e de mão serena,
Ao violão:
Eis a questão
De Né Ladeiras
No seu «Sonho Azul»,
Sem fronteiras...
«Ao sul»...
«À procura do meu Norte».
E, tal como em «Noites do Norte»,
Lembre-se de Caetano
Trovador do coração.
Ah! Há pouco, por puro engano,
«Falando de Amor» e Bossanova
Esqueci Baden Powell e seu violão
De eficácia a toda a prova.
E também de Carlos Lyra,
Que «flechas de amor» atira:
«Sabe você o que é o Amor?»
«Não sabe? Eu sei!»
«Você já chorou de dor?»
«Pois eu chorei.»
E a «Marcha de 4.ª feira de cinzas»?
«Para andar de madrugada
Com a amada,
Pela mão»
Em «Suburbano Coração».
«Para que os olhos do meu bem
não olhem mais ninguém».
E Julinho: seja esperto!
Preste bem atenção
E tenha o espírito aberto
Para o som de João Gilberto:
Sua «Voz E Violão»!
E, naquele jeitinho manhoso,
Se quiser ficar mais envolvente
Ouça um pouco de Rui Veloso,
A quem ninguém fica indiferente.
Mas escute primeiro
A voz de Nuno Guerreiro
Derramando recados
Na «Ala dos Namorados»,
Amando, «assim perdidamente»,
Florbela Espanca... fatalmente.
Misture um pouco de salsa
Para ficar menos profundo.
Arregace a sua calça
E ouça Compay Segundo.
De Cuba mais para Norte,
Chegando ao Jazz da América.
Você está perto, é, tem sorte:
Não vive em Ilha periférica!
Se estiver em qualquer «Town»
Ouça o baixo de Ray Brown.
Alugue carro na agência «Avis»
E viaje ao som de Miles Davis.
E para quando a saudade aperte:
Benny Goodman no clarinete,
Louis Armstrong, voz e trompete
Duke Ellington, ao piano
E, sem qualquer engano,
Oscar Peterson também,
Stan Getx, de «sax» profano,
Para quem não há ninguém,
Nem Gilberto, nem Astrud,
A quem ele se agarrou, qual crude...
Mas não se esqueça das divas:
Ella Fitzgerald, cantando Jobim...
Sara Vaughan, que canta para mim...
(«Prenda Minha»? ou «Sorte» de Gal?)
Billie Holiday e sua história pessoal
Que mete dó, até em Portugal...
Onde esteve Diana Krall
Que aplaudi no «Music Hall».
Peggy Lee: «you turned the table on me»...
Cybill Sheperd, quem diria?
«Modelo e Detective»
Que canta como um rouxinol!
Em trabalho que obtive
Numa linda tarde de sol
De Lisboa que sorria...
Depois de fazer isso tudo,
Descrito de forma tácita,
Assim que acabar o Entrudo
Dedique-se à música clássica.
Quem sabe não te encontro um dia
E estudamos em parceria?
Aí mesmo ou nesta Ilha,
Onde acompanho minha filha
Da melhor forma que posso e sei
Para não dizerem que falhei.
Sem «coqueiro
Que dá coco»
E com roteiro
Que me põe louco;
Com amizade,
Quase paterna
Mas nada hesitante,
Com lealdade
E emoção fraterna
Dum Pássaro Distante,
(dedicado aos «paulistas ouvidos cansados» de Cris, Doce Maior, e a Lupi pela temática que inspirou estes versos)
Nossa vida é um iceberg.
Vemos ou queremos ver,
Apenas, sua ponta imberbe:
Seu melhor resplandecer.
Mas descobrimos, afinal,
Que é mais profunda do que isso.
Nossa imagem é virtual,
Imposta sem qualquer aviso.
Poderemos sentir pavor
Ao mergulhar no interior
E, no que por lá existe, nadarmos:
Aquilo que, de nós próprios, pensarmos!
E depois faltarão forças
Para voltar à superfície
Evitando, assim, mais poças
Que enlameiem a planície.
Santuário encardido,
Anuário repetido
Por direito adquirido,
Por defeito reagido.
Espírito ensaboado
Em detergentes de pecado
Com nódoas de lucidez
Que se destroem, à vez.
Do brilho resulta um gelo
Do iceberg: desfeito, sem lar,
Amparado pelo cotovelo
De quem não soube, nem sabe, amar.
Do gelo resulta a água
Diluída com bolor
Misturada com a mágoa
E com falta de amor.
Da água resulta a partícula
Engolida pelo ácido
Que destrói nossa película,
Nosso corpo triste e flácido.
Da partícula nasce a gota
Viciada de resquícios
De esperança, ora douta,
Ora eivada de maus vícios.
Gota a gota estremece
A lágrima, por nós deitada
Em «Lisboa, que amanhece»
Após se sentir curada.
Curada dum corpo sombrio
Trasladado à memória
De um qualquer sonho frio
Retido na Ilha sem glória.
Corpo que não tem assunto,
Corpo que não tem assento.
Sorriso, lindo, de defunto
Mostrado a qualquer momento.
Corpo jogado ao mar,
Donde o iceberg veio,
Na teoria, concretizar
O ecossistema do meio.
Corpo onde nascemos
Corpo onde pensamos
Corpo onde vivemos
Corpo a quem nos damos.
A quem via, apenas, imagens
E, pelos olhos, julgava ver
O brilho da alma. Miragens!
Mas que desértico anoitecer...
Onde estás Musa divina,
De verbo agradado,
Bondade felina
E rosto tapado?
Onde está essa mulher?
Perdida na Maresia?
Eternamente, como quer?
Tal como nos dizia?
Mulher que tem vestida
A sombra do anonimato
Saudando cada investida
Com elegante trato.
Mulher que não confirma
Os factos da narrativa,
Aos quais, no que afirma
Com subtileza, se esquiva.
Mulher que se escuda
Na desigualdade
Da ave: desnuda
Nesta intimidade.
Mulher que consente
Na boa amizade,
Contudo pressente
Infelicidade?
Mulher que imagino
Quem pudesse ser:
De olhar tão divino
De se embevecer...
A que não me conta
Nem retira a manta,
Mas que me aponta,
Me aguça e me espanta.
Onde está Musa divina
Dos mistérios do amor?
Perdida entre a colina
E a Casa de um trovador?
Ou presa na segurança
Dum parceiro incrustado
De malícias e pujança
Com que a tem tratado?
Onde está essa mulher
Que não sabe aquilo que perde?
Anonimato. É o que quer?
Um Pássaro que não enxergue?
Presa na retina
Dum Pássaro errante
Navega, divina,
Num mar diletante.
Na luz que alucina
A própria lucidez
Brilhas, cristalina,
Mais do que uma vez!
Em quais lençóis de seda
Nos perdemos uma vez?
Em que hotel duma alameda
Você fez o que me fez?
Em que festa você estava
Vestindo a seda mais linda,
Dizendo que me amava,
Que minha alma era bem vinda?
Em que noite te perdi?
Em que dia te encontrei?
Eu, que amei tudo o que vi
E, quando te perdi, chorei?
Em que mar você navega
Em que barco se introduz?
A qual homem 'cê se entrega?
Porque ainda me seduz?
Em que onda você está?
Está na "krista" ou lá no fundo?
Onde quer que você vá...
Sua seda é "mel" do mundo!
Ontem tive um fim de tarde excepcional. Arrumei meu escritório e consegui juntar quase todos os meus compactos mas dei-me conta de que estavam muitos por catalogar numa folha de excel que tenho de há alguns anos a esta parte. Vou demorar meses, contabilizando meu tempo disponível....
Uma alegria: Encontrei um CD de Alcione, ao Vivo, contendo a música "Novo Endereço"!
Minha caçulinha, de dois anos e meio, que estava entretida na ornamentação da árvore de Natal com sua mãe, deu-se conta da música e veio ao meu redor dançar comigo. Várias coreografias foram executadas num espaço exíguo, mas a pestinha é mesmo danadinha por música. A certa altura minha mulher, ave deste Pássaro, chamou por ela e, imagine-se, fechou a porta do escritório para não ter que ouvir nada e continuar a participar na bagunça: mexeu no meu bandolim, no meu violão, no tambor, nas maracas, enfim... foi uma sorte ainda não ter mexido nos CD's, mas os Tribalistas estão requisitados e ninguém mexa neles! Ordem de caçulinha!
Fez sábado oito dias e fomos jantar a casa de um simpático casal que ficou encantado com nossa filhota. A certa altura ele disse: vocês reparem nos tectos das igrejas e vejam os anjinhos que lá estão pintados. Vossa filha é um anjinho!
Eu pensei para os meus botões: anjinho de Igreja e diabinho à solta em casa!
Miúcha canta uma música de Tom Jobim cujo título traduz aquilo que minha filhota representa para mim: «Pela Luz dos Olhos Teus»...