novembro 29, 2003

Noite de quase tudo e de quase nada...

Ele frequentava a faculdade, a milhares de milhas de distância da terra natal de seus pais. No seu segundo ano universitário prestou atenção a uma colega de turma que cativava pela simpatia, boa disposição, inteligência, vivacidade e por aquele «brilhozinho nos olhos» (como canta Sérgio Godinho) que arrebataria o mais distraído destinatário por quem os mesmos se interessassem.
Meses de convívio proporcionaram, já no terceiro ano, uma calorosa amizade, visitas a casa da simpática mãe e irmãos (infelizmente o pai havia falecido recentemente) e uma prenda de Natal singela: um metical, moeda moçambicana, local onde nasceu, ainda hoje guardada religiosamente.
Amizade que pudera acompanhar minimamente um namoro problemático por ela vivido...
Na manhã duma sexta-feira perdida na memória, durante uma fastidiosa aula teórica no anfiteatro número um da Faculdade de Direito, ela, que raramente comparecia às aulas teóricas, escrevinhou-lhe na sebenta:
«Queria passar o fim de tarde e a noite contigo...»
Tímido como era, corado ficou. Em resposta, de igual modo escrita:
«Mas o meu apartamento está um nojo e não se compara ao luxo onde vives... e o teu namorado?»
«Hoje é dia feriado para o namoro, não te aflijas. Tenho umas coisas para fazer depois das aulas mas vou ter a tua casa pelas 5 da tarde e ajudo-te na limpeza se for preciso.»
Lá fez ele a faxina da sua residência e quando se preparava para um retemperador banho toca-lhe à porta a «convidada», que chegara mais cedo em relação ao previsto.
- Olha...ia tomar banho... entra e põe-te à vontade.
- Vai lá tomá-lo, mas diz-me o que é que posso fazer enquanto?
- Queres beber alguma coisa? A esta hora não sei o que te ofereça. Mas vê o que tem no frigorífico e, se quiseres, tenho ali uns amendoins por descascar¿ se quiseres fazer isso enquanto me arranjo...
- Tudo bem...
Foi um banho tomado em «stress», o primeiro na presença de uma mulher debaixo do mesmo tecto. Usava um «after-shave» Kuoros, de Íves Saint-Laurent, cujo cheiro fora deveras elogiado por ela, assim que o inalou.
Não deram pelo tempo passar, sentados que estavam no sofá da sala a conversar ininterruptamente. Nem tinham vontade de jantar. Serviu-lhe um Martini Rosso como aperitivo acompanhado pelos amendoins de que recebeu o seu contributo na respectiva descasca.
Toca, entretanto, o telefone. Uma colega a informar dum jantar de turma organizado à última hora num local qualquer que admitia refeições tardias e que era para passar palavra.
Subitamente, ela agarra-lhe a mão direita e fixa-o nos olhos. O seu coração acelerara bruscamente naquele momento, que parecia uma eternidade, em que esperava ansioso pelas palavras que se seguiriam ao gesto:
- Ir a esse jantar significará, para mim, manter a vida que tenho... Hoje queria desaparecer dessa minha vida, refugiar-me contigo neste apartamento e poder dizer, ao nascer do Sol, que mudei irremediavelmente o rumo do meu destino... depender de ti nesta noite que depende de ti, apenas...
Mantendo a mão apertada e o olhar imperturbavelmente fixo, aguardou que ele respondesse, sendo afagada com uma carícia na face e nos seus caracóis ruivos, como prólogo para as palavras que custavam a sair do pensamento:
- Há momentos na vida em que o nosso desejo é de tal ordem que impossibilita o discernimento daquilo que seja o melhor para cada um. A amizade que temos também não me impedirá de sentir uma grande atracção por ti e um desejo reincidente nos meus sonhos... nestes últimos tempos. Mas falar de nós implicaria que me visses como um destino e não como um meio de fuga da tua realidade, que, por ser isso mesmo, ficou por resolver. E se mudares de destino sinto que não será para o meu. Serei um instrumento nesse caminho e será uma grande sorte não vir a ser um arrependimento que possas vir a sentir mais tarde.
- Como podes ter essa certeza?! - Ripostou indignada.
- Não posso... mas é o que sinto. Diz-me, em consciência, estou assim tão errado no que te digo?
- Vamos jantar com os nossos coleguinhas! - Exclamou, em tom irónico e brusco.
- Sim... Vamos.
Não trocaram palavra desde o seu apartamento até ao restaurante e quando lá chegaram foram absorvidos por colegas desconfiados (e, em menor número, ciumentos) por aquela chegada simultânea. Na extensa mesa ficaram de frente mas apenas trocaram olhares.
Ele sentia fúria no espelho da alma da sua amiga e confirmou-a com as suas provocações flagrantes, ao dançar de modo exuberante com outro colega, na discoteca escolhida pela maioria, numa preenchida Avenida 24 de Julho, mas nunca retirando do seu ser aquele olhar furioso assim como a direcção do destinatário, remetido à sua vodka com Coca-Cola, bebida com a moderação que já não existe nos dias de hoje, uma década depois.
Fez-se manhã e um magote de catorze pessoas (cada uma delas de um sítio diferente de Portugal) decidiu parar na casa mais próxima que albergasse o cansaço de uma noite preenchida; por sinal, o seu apartamento.
Ela ficou no seu quarto com o colega parceiro de dança enquanto as outras duas divisórias (um outro quarto e a sala de estar) foram repartidas por 12 pessoas, na última das quais ficaram aqueles que não conseguiam dormir.
Ele saiu de casa para comprar pão quentinho e uns bolos na pastelaria (onde era assíduo frequentador) para os seus colegas, evitando assim que fossem embora em jejum.
Ela foi a última a sair daquela casa, deixando-lhe estas palavras, mote para um curto diálogo à porta do elevador:
- Podia ter sido quase tudo para nós e passou a ser quase nada...
- -Afinal, não foi preciso esperar muito mais tempo para ver quem tinha razão: eu seria uma carruagem, não a estação final...
Mais palavra alguma fora trocada por ambos, durante os anos que faltaram para o curso ser terminado...
Se, como canta o eterno Vinícius de Moraes, «a vida é a arte do encontro apesar de haver tanto desencontro pela vida», para eles a «arte do encontro» fora a da irreversível despedida. E nem a amizade se salvou...
- É - disse-me ele anos mais tarde, «com um brilhozinho nos olhos» - e nem a amizade se salvou...

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novembro 27, 2003

Sol de Novembro

Sol que mostra a face
À face desta Terra
E que, sem pedir passe,
Neste Novembro aterra.

Sol que traz calmaria
Ao mar que prolifera
E em cuja maresia
Meu vento desespera.

Sol invasor dum quarto,
Dum carro e gabinete
No qual tanto me farto
De viver cada falsete.

Sol que brilharia
Num espírito ausente
Dum corpo que mentia
De forma incoerente.

Sol que aproveita
Saudades do futuro
Ou Verão que mal aceita
As cinzas dum escuro.

Sol que não sublinha
Calor num corpo frio
Provocando na espinha
O mal de um arrepio.

Sol que atormenta
A leitura dum livro
Ou de qualquer sebenta
Que anota o que me privo.

Sol que poderia
Ser tu, perfeitamente,
Não fosse a luz do dia
Ferir-me no presente.

Sol que não permite
As sombras no teu ser
E que, porém, omite
A dor de te perder.

Sol que não se importa
De dar o brilho à Lua
Que abre a minha porta
Quando te sinto nua.

Sol que, por acaso,
Musica o meu vício
Alongando o ocaso
Por mando do armistício.

Sol que não se agrafa
Às faltas de coragem
Tão pouco desabafa
Sonhos dos que não agem.

Sol forte que arde
Na minha consciência
E chama de covarde
À minha existência.

O Sol da Primavera
Que nasceu em Agosto
Matou uma quimera,
Sangrou-a de desgosto.

Postado por Pássaro em 10:47 AM | Comentários (0)

novembro 25, 2003

A MUSA E A MEDUSA

I

Falei à linda Musa
Todos os adjectivos,
Ora repetitivos,
Em poética difusa.

Faltou falar na Medusa,
Mulher feia e perversa,
Gramática controversa
Que me usa e abusa:

Em estrofes de agonia,
Em versos de desprezo,
Em poemas de silêncio...

Em dias que não rezo,
Em tardes de suplício,
Em noites de fobia.

II

Pela madrugada fora
Diz que me adora
Brilhando pelo escuro.

Chegada à alvorada
Larga a almofada
E quebra-me o futuro.

III

O melhor de cada mulher
Neste mapa invertido
De quem não sabe o que quer
E se sente foragido.

O pior de cada ser
Erguido dum viveiro
Que idolatra o verbo Ter
E só pensa em dinheiro!

IV

Musa altiva e pura,
Deusa que não existe
Nem na vagina dura
Da Medusa que persiste.

Musa que, por acidente,
Me fez sair da caverna
E que me, fatalmente,
Tornada Medusa, condena.

Musa do meu pranto,
Medusa da minha folia:
Não mais peças o manto
Para imperfeita orgia.

Musa do meu desespero,
Medusa do desatino
Dum Pássaro sem tempero,
Sem asas... e sem destino.

Postado por Pássaro em 10:48 AM | Comentários (0)

novembro 23, 2003

Encontro de amigos

Numa noite de Inverno, na capital do Império em queda (como canta Vitorino), ele, acabado de aterrar, telefona-lhe e pergunta se pode fazer um desvio no seu trajecto indefinido para aquele fim-de-semana para lhe dar um abraço que saudasse uma amizade de 14 anos.

Não se viam há alguns anos e decerto haveria muita conversa para «pôr em dia». Mas foram incapazes de trocar mais do que umas breves palavras, emocionados pelo reencontro e ainda mais pela mesma pergunta com que mutuamente retribuíram:

- És feliz?

As lágrimas que escorriam pela face de ambos eram a resposta e retomaram o abraço inicial interrompido por alguns momentos para que pudessem ver no outro as marcas do tempo e da vida: um divórcio complicado e um casamento numa fase assaz complicada.

Ficaram abraçados e deitados no sofá da sala pela noite dentro, até perderem a luta contra o sono. Não trocaram qualquer palavra, nem era preciso. Sentiam que aquele era um momento eterno. Estavam cientes e satisfeitos por conseguirem, por algumas horas, parar o cruel relógio do tempo.

Estava frio e parecia que o nevoeiro das setes colinas entrava naquela sala e se confundia com a névoa duns olhos que lacrimejavam...

Choraram muito... Aqueciam-se das lágrimas vertidas e do calor que irradiava dos seus corpos vestidos, que teimavam em não se separar um do outro.

Tinham a sensação de entrar numa qualquer plena comunhão sem que houvesse necessidade de um outro tipo de intimidade física, que nunca houvera entre ambos...

Os primeiros raios de claridade invadiram aquela sala e ele acordou primeiro. Foi ao quarto dela e retirou um cobertor com o que a agasalhou e se despediu com um suave beijo na testa, fechando muito devagar a porta da rua para que não acordasse e seguindo em direcção da viatura que alugara no aeroporto da Portela.

Não sabia para onde iria e acabou por fazer a volta a Portugal litoral nesse fim-de-semana. Munido apenas de umas cassetes da música que gravara e dos pensamentos que carregava, em relação aos quais necessitava da mais absoluta solidão para reflectir. Não se recorda por onde passou e quais os hotéis de auto-estradas em que pernoitou, apenas sabe que conduziu horas e horas sem fim, sozinho, ao nevoeiro e à chuva, tendo como companheiros pontuais os cafés tomados nas estações de serviço e algumas revistas que fora comprando pelo caminho mas que nem sequer chegou a ler.

Ela mandou-lhe uma mensagem escrita, já o domingo se vestia de noite, dizendo:

- Há momentos únicos na vida que nos marcam de tal modo e em relação aos quais sentimo-nos verdadeiramente privilegiados por terem acontecido connosco.

Fez o «check-in» com aquelas palavras gravadas no cérebro (assim como no telemóvel) e as lágrimas nos cantos dos seus olhos, teimando em escorregar pelo naufrágio do seu espírito solitário guiado por um corpo que o mergulharia, «Air Portugal», na situação pessoal que havia deixado em «banho-maria».

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novembro 22, 2003

Voando sem rumo

Voando sem limite,
Sem dor e sem lamento;
Sem o olhar que permite
Algum constrangimento.

Voando contra o vento
Contra o tempo e contra tudo;
Perdendo um argumento
Brilhante, sobretudo.

Voando pela história,
Pelos livros, pela luz;
Largando a vitória
Ou brilho, que te seduz.

Voando pelos discos
Melodias e cantores;
Escrevinhando rabiscos,
Visando alguns amores.

Voando pela cidade:
Na poeira e no fumo
Duma sociedade
Encharcada de consumo.

Voando sem energia,
Sem força e atitude;
Magoando quem me queria
E via, em mim, a virtude.

Voando contra a vida
Contra tudo e contra todos;
Pousando numa Avenida.
Nome: Solidão a Rodos.

Voando contra um amor
Que busca a comparação
E que não vê meu humor
Mudar de direcção.

Voando no oceano
Tristonho e muito frio
Da paixão do engano,
Tão cheia... de vazio.

Voando-me pelo escuro
Na rota de uma estrada
Sem luz ou pouso seguro
Ou, mesmo, casa assombrada.

Voando pela minha alma,
Sombria arrecadação,
Apunhalando, sem calma,
A palma da minha mão.

Postado por Pássaro em 10:51 AM | Comentários (0)

novembro 21, 2003

Ao amigo que partiu

(em memória de António Carlos Martins de França Ferreira)

Ao amigo que partiu,
À saudade que ficou,
À dor e ao arrepio
Das lembranças que deixou.

Ao amigo que sorriu,
Que, comigo, chorou
E que nas margens dum rio
A sua vida largou.

Ao amigo que percorre
As quintas do paraíso
Esperando pelo juízo
Dum amigo que não morre.

(Ainda...)

Ao amigo que está vivo
Só no inconsciente
Desta lucidez, bem quente:
Ora sonho, ora crivo.

Ao amigo que morreu
E à tristeza que deixou:
A quem o tinha e perdeu
A quem o amava e naufragou.

Ao amigo que é história
Desta vida saltitante
Que se agarra à memória
Para não ser itinerante.

Ao amigo que perdi
E aos que irei perder.
Não sei o que faço aqui.
Que fiz para vos merecer?

Ao amigo que partiu
Num desastre de viação
E que a todos impingiu
A morte ao coração.

Ao amigo por quem choro
Neste preciso momento
Em que nada mais invento...
Nesta dor eu me demoro.

Postado por Pássaro em 10:52 AM | Comentários (0)

novembro 19, 2003

Vista curta?

Não vês na vida que levas
O mal da vida que trazes?
É que não cedes às pazes
E ao sossego me negas.

Não vês no teu argumento
(Filme tristonho e banal
Rodado nesse teu quintal)
O peito do meu lamento?

Vês no meu hemisfério
(Ora alegre ora sério)
Semblante de inquietude?

E vês infelicidade
Estampada nesta saudade?
Sofrida na plenitude?

Postado por Pássaro em 10:53 AM | Comentários (0)

novembro 18, 2003

A verdade da cidade

Pairava pela cidade
Cumprindo as obrigações,
Tentando ver a verdade
Dessas movimentações.

Tentei mostrar que valia
A seres que pouco valem:
Incorrectos no dia a dia,
Esperando que os embalem.

Dediquei a minha atenção:
Aprofundei cada questão
Que me era colocada.

Presenteei a compaixão
Mas recebi ingratidão...
Isso tudo... para nada.

Postado por Pássaro em 10:55 AM | Comentários (0)

SE A VERDADE É COMO O AZEITE...

PORQUE PREFERIMOS BEBER ÁGUA?

Prefiro o azeite do que não dizes
À água com que me sacias
Ou ao vinho com que me embriagas!

Prefiro-o às omissões infelizes,
Perpassadas nestes dias
Com contradições veladas!

Prefiro o azeite da verdade,
O vinagre da certeza
Ou o absinto mais puro.

Prefiro-os, pois basta de falsidade,
Na indisfarçável rudeza
Desse impenetrável muro!

Prefiro viver o pesadelo,
Acordar da insensatez
E de análogas situações.

Prefiro levar, antes, um selo,
Carimbar-me de lucidez
E despedir-me das ilusões.

Prefiro os amores-perfeitos
Descritos na literatura
E lidos na maresia.

Já me bastam os defeitos
Desta versão impura:
Daquilo a que chamo poesia!

Postado por Pássaro em 10:54 AM | Comentários (0)

novembro 17, 2003

Eis o meu corpo!

O meu corpo ressequido
O meu espírito apagado,
O meu olhar ressentido,
O meu sonho incomodado.

Meu coração sem batida,
O meu pulmão sem qualquer ar,
O meu colo sem guarida,
E o meu cérebro sem lar,

O meu peito mal refeito,
O meu cabelo sem jeito,
E meu ouvido cansado.

Este meu braço sem força;
E meu pé: mas que não torça
Este caminhar ralado.

Postado por Pássaro em 10:56 AM | Comentários (0)

novembro 16, 2003

De Manuel Alegre, excertos da «Trova do Vento Que Passa»

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu País.
E o vento cala a desgraça,
O vento nada me diz.

...

A noite cresce por dentro
Dos homens do meu País.
Peço notícias ao vento
E o vento nada me diz.

...

De Pássaro Distante, fazendo um «up-grade»:

Pergunto ao vento que passa
Notícias do meu amor¿
E o vento só embaraça,
Não cala a minha dor¿

O dia matou o sonho,
A tarde seu argumento.
Meu filme, de tão risonho,
Esvaiu-se na mão do vento¿

Assino um documento
Em nome da minha dor
Palavras? Leva-as o vento:
Lamento de trovador.

Pergunto ao vento que passa
Do rumo da minha vida.
E o vento, que me perpassa,
Afirma que está perdida.

Arrumo minha bagagem
Enchida de pensamento
E nuvens sem a coragem
De pedir conforto ao vento.

Percorro a avenida
Do porto desta cidade
Que, um dia, me deu guarida
E hoje de mim se evade.

Junto ao cais triste e escuro
Vi vento bem afinado,
De voz que parece um muro
Ou segredo bem guardado.

Isolo a tua jura
No fundo desta garrafa
Em rolha que não se fura
Num mar que não desabafa.

És o meu constrangimento
Que invade o que silencio,
Espalhando por este vento
As notas dum arrepio.

O tempo fez-te princesa
Das águas do meu destino.
No presente és a tristeza
De mágoas que mal fulmino.

Silêncio de arguido,
Calando uma mentira
A quem era teu querido
Que o vento, de ti, retira?

Silêncio de inocente
Ou ardil bem criativo?
Cavando a dor dormente
Deste Ser tão pensativo.

Pergunto ao vento que passa
Se viu a melancolia,
Qual seiva, desta desgraça
Que me aconteceu um dia.

Na luz desse Sol ausente
Respinga no horizonte
A dor de quem já pressente
Facada à sua fonte.

Postado por Pássaro em 10:58 AM | Comentários (0)

novembro 13, 2003

E o que acontecia se te prendesse?

No coração: a liberdade;
No pensamento o ensejo;
Na razão: autoridade.
No teu olhar o meu desejo.

A algema era a mão,
O uniforme: o corpo,
O sexo: meu bastão;
Sua dor: o teu conforto.

Tua cela: nosso canto;
Seu colchão: a nossa cama.
O amor era o manto;
A emoção: a sua dama.

Explosão absoluta!
Cinzas feitas das grades!
E do meu peito te evades
Sem bruta forma de luta.

Mas porque não era polícia,
Nem trazia comigo a malícia:
Era logo desp(ed)ido
E da corporação banido!

Seria tua testemunha,
Fosse qual fosse o crime.
Mãos no fogo por ti punha,
Com argumentação sublime.

Ilibada desse acto
E segura do meu querer,
Recebia-te no quarto
Até a força perecer...

Mas não era aquela cela
Desfeita pela fogueira.
Era um quarto com janela
E meu amor tua lareira.

«El fuego»! Que me... Alicia ;)
Pelo brilho do teu olhar,
Sonhado quando não te via,
Navegado no teu ofegar.

Sonhado na «Maresia»,
Na Casa feita teu lar...
Era o que te acontecia...
N' «El Dia Que Me Quieras» amar.

Postado por Pássaro em 10:59 AM | Comentários (0)

novembro 12, 2003

Mexendo no tempo

I

Nas partículas da cronologia,
Em que és passado e presente,
Compões, mesmo que ausente,
A minha morfologia.

Em cada gota que corre
Na desregulada levada
Tu és tudo e és nada...
Neste amor que não morre.

E nem sequer falo do cais,
Domicílio de quem espera
Iludido pela quimera
Dos desejos imorais.

II

Todos estes dias
Olhava pela janela
Deste cubículo, tela,
A ver se aparecias.

Todo o santo dia
Chorava a São Lourenço,
Munido de um lenço,
Inaudível a quem via.

III

Nesta profana hora
Em que a saudade invade,
Salta uma vontade
Que espreita lá por fora.

Em cada minuto
Desta agitação
Suspendo o coração
A ver se te escuto.

Em cada segundo
Preenche-me a fome
De gritar teu nome!
Espalhá-lo ao mundo...

Em cada fracção
De qualquer sentido
Vejo-me perdido,
Sem orientação.

Em cada milésima
De tempo sem hora
Procuro-te lá fora
Pela vez enésima.

IV

Simples grão de areia
Dum relógio do tempo:
Voo com o vento
Que me dá boleia...

Neste risco que traço
No peito, qual fogo,
Antecipo, a rogo,
Prometido abraço!

E se «fora de horas»
Estou na tua vida:
Diz-me, minha querida,
Já e sem demoras.

Postado por Pássaro em 11:00 AM | Comentários (0)

novembro 10, 2003

Do Cais da agonia

Pelo silêncio insistes
Na minha condenação;
Pela palavra resistes
A dar-me informação.

Pela imagem persistes
Tornar miragem a visão.
E de longe assistes
À minha degradação.

Não negues
Que viste,
Em mim, a decepção.
Nem cegues
Sonho triste
Virado desilusão.

Não pegues
Em riste
O soluço da paixão.
Nem sonegues
O que abriste:
Um fosso no coração.

Não regues
O despiste
Da nossa condução.
Nem renegues
O que existe:
Este amor sem tradução.

Postado por Pássaro em 11:01 AM | Comentários (0)