outubro 25, 2003

Canto perdido

Canto a minha «loucura»
numa esquina sem sossego,
num recanto sem ternura,
num quintal sem arvoredo.

Canto a minha agonia
nalgum quarto escuro,
numa janela sem dia...
num presente sem futuro...

Canto o meu desespero
frente a prato sem tempero
e a copo sem bebida.

Canto, desorientado,
em cabaré degradado,
uma canção mal ouvida.

Postado por Pássaro em 11:03 AM | Comentários (0)

outubro 21, 2003

Poema de 13 de Agosto

Brilham meus olhos
pelos olhos teus:
amantes...presentes.
Lágrimas aos molhos,
Nas horas de adeus,
Caem... dormentes.

Mexem as águas
por ti agitadas
Com teus pés descalços:
Ficam as mágoas,
No peito gravadas,
De tantos percalços.

Em mim navega,
Profundo, teu corpo:
Agitado encanto!
O meu ser sossega
deitado num porto
Que te quer tanto...tanto!

Meus olhos cintilam,
Estando a mil milhas
Do teu horizonte:
Ausências refilam.
Dirão maravilhas
Ao ter-te defronte.

Ò ave liberta
Por conta de um vento
que te ilumina:
Fui a descoberta
Do teu sentimento. -
Olhar de menina!

Calo o meu berro
outrora urdido
em leve surdina.
No peito encerro
Um sonho querido
Ou Graça Divina.

Deste-me o sonho
E o teu sorriso,
Aos quais estou preso.
Fico risonho...
E bem que preciso
Manter-me aceso.

És anjo? Ou diabo
A atazanar
Pacata essência?
...Meu peito agitado
Por pouco arriscar
Na tua vivência...

Nunca será tarde,
Para o nosso amor,
Caminhar no cais.
Se mais cedo? Aguarde
Porque a tua flôr
Quer saber se vais...

Lágrima sincera
Estampada num rosto
Quase juvenil.
Porque a Primavera
Nasceu em Agosto
E fez-me febril!

Postado por Pássaro em 11:26 AM | Comentários (0)

outubro 09, 2003

Dicionário da Tristeza, de A a Z

Enquanto os cardeais poderão estar «esfregando as mãos» para ver quem é o próximo sucessor de Pedro, o fundador da Igreja de Cristo, a situação clínica do Papa João Paulo II e a estúpida morte do diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello preencheram, recentemente, os meus pensamentos, pois acredito que, cada um deles, ao seu nível, tentavam remar contra a «maré negra» de um mundo que passou da razão da força para a razão do dinheiro¿
Porque andamos todos um pouco tristes este ano, desde aumentos percentuais irrisórios nos vencimentos dos que têm ainda a sorte de trabalhar (se bem que a crise seja como o Sol, que quando nasce não é para todos), até aos incêndios de Verão (pronto, não volto a falar daquele Chefe dos Bombeiros armado em Relações Públicas da «Caras... de Pau»), passando pela escandaleira dos políticos que temos, por exemplo, ao não equipararem, penalmente, a violação de crianças a um crime contra a vida, sob o pretexto de não «mexerem nas coisas» «a quente»¿ (e depois queixem-se, «meus» «senhores de letra minúscula», da justiça pelas próprias mãos¿) decidi conceber, em quadras soltas (não as «Quatro Quadras Soltas» de Sérgio Godinho), um:

Dicionário da Tristeza (de «A» a «Z»): 1.ª Edição

Porque os pensamentos são como as cerejas, atraindo, ainda mais, reflexões e memórias, não posso deixar de referenciar, como preâmbulo, uma música de Adoniran Barbosa (com base num poema de Vinícius de Moraes) denominada «Bom Dia Tristeza», difundida há imensos anos num programa de televisão brasileiro chamado ¿No Fino da Bossa¿, apresentado e cantado por Elis Regina, a qual contou a colaboração do próprio Adoniran na interpretação daquela, depois de terem dado conhecimento ao público da forma como o poema de Vinícius chegou às mãos do autor do conhecido ¿Trem das Onze¿, via Aracy de Almeida, amiga comum. Ter ouvido esse registo permitiu-me também escrever o «Boa Noite Tristeza», (que me perdoem a ousadia literária) mas tal faz parte das contas de outro rosário...
Só mais uma nota: deixei propositadamente de fora o «Y» e o «W» como forma de protesto pela exagerada americanização das nossas vidas! Influência, para mim, só a do jazz e um ou outro filme de qualidade, de tempos a tempos. Mas se insistirem muito posso remeter o «W» para o duche, perdão, para Bush e o «Y» para os Yankees. Dessa forma não há o risco de se considerarem tais letras ¿armas de destruição maciça¿!...
Mas guardei o «K» na minha algibeira, pois pode haver necessidade de usar uma «Kalashnikov» caso o entendimento da Casa Branca varie¿ tal como a direcção dos ventos da conveniência diplomática.

A
Aqui jaz a Alegria
Que pernoitava intermitente.
Transformou-se em Alergia
Porque tudo é-lhe indiferente.

Aqui jaz a Aventura
De viagens sem destino,
Todas cheias de frescura
Que à memória confino.

B
Aqui jaz(z) a Bossa Nova
E a «batida diferente»,
Foragida da «malta nova»
Que se lhe mostra intransigente.

Aqui jaz(z) um Bandolim,
Outrora bem afinado
Tal e qual um «Passarim»,
Tema dum Jobim amado.

Aqui jaz a Boémia
Eternamente adiada,
Sonhada sem alcoolémia
E quase nunca libertada.

C
Aqui jaz algum Cachorro
Pelo homem (??!!!) maltratado.
Seu pedido de socorro
É por todos ignorado.

Aqui jaz a Chuva pura
Empurrada pelo vento,
Diluída com amargura
Poluída pelo tormento.

D
Aqui jaz a Dor urgente,
A paixão dissimulada,
De alguém que sofre e sente
Uma vida para nada.

E
Aqui jaz um qualquer Estranho
A tudo o que o rodeava:
Ter de viver num rebanho
Era facto que arreliava.

F
Aqui jaz certo Futuro,
Pesadelo de quem sonha,
De quem sobrevive no escuro
E muito transpira na fronha.

G
Aqui jaz esse teu «Gelo»,
A frieza do teu olhar,
Que se impregnou no meu «pelo»
E me impediu de te amar.

Aqui jaz um gafanhoto,
Parceiro duma cigarra
Adoravam Calcanhotto
Bem como a sua guitarra.

H
Aqui jaz a Harmonia,
Obra-prima da natureza,
Retratada pela poesia¿
Maltratada à tua mesa.

Aqui jaz a Honradez,
Prima-dona da nobreza,
Atordoada, talvez,
Pelos gestos de rudeza.

Aqui jaz o meu Humor:
Virou negro e com ¿espinho¿,
Não resistindo ao horror
De tanta falta de carinho.

I
Aqui jaz a Inocência,
Parceira da Ingenuidade,
Para a qual não há clemência
Em terras da vulgaridade

J
Aqui jaz a Juventude,
Prematuramente adulta,
Sem um «pingo» de virtude,
Sem um mínimo de culpa.

L
Aqui jaz a Liberdade
Enfiada na gaiola,
Apodrecida, por cobarde
De fato, gravata e cartola¿

Aqui jaz o brilho da Lua
Do seu sol divorciada.
O tempo não apazigua
Uma vida desolada.

M
Aqui jaz(z) a bela Música,
Fada-madrinha dos ouvidos,
Dos sonhos (que adocica)
De Seres sós ou perdidos.

N
Aqui jaz a nossa Noite
Pela vida modificada
Como se tivesse um açoite
Privando-a da madrugada.

O
Aqui jaz o meu Orgulho,
Luz de farol fundido
Jogado nesse entulho,
À espera de ser ardido.

Aqui jaz a Ousadia,
Imóvel, de olhos vendados;
Juntou-se-lhe a folia
Com seus sons amordaçados.

P
Aqui jaz o meu Passado
Incrustando no presente
Tudo o que teve de errado
E se repete fatalmente.

Aqui jaz a minha Paz
Brutalmente assassinada
Por quem manda, quer e faz
Um hino à «terra queimada».

Aqui jazem, sem sorte,
Nossos Pontos Cardeais,
Todos «feridos de morte»
Pelos «pecados mortais».

Q
Aqui jaz a Qualidade
Como realidade proveta,
Confundida, na verdade,
Por um sistema da treta.

R
Ali jaz um reles Réu,
Arguido inconfessado,
Começando a ver, no céu,
O sol a nascer quadrado.

S
Aqui jaz um Ser sensível
Extremamente amargurado
Numa solidão terrível
Que o mantém encarcerado.

Aqui jaz a Solidão,
Enteada da calma,
Enterrada na podridão
Duma Ilha sem alma.

T
Aqui jaz a minha Tralha
Abarcando tantos medos.
Ela, a uns, só atrapalha,
Receosos dos segredos.

U
Aqui jaz o Urubu,
Afamado por Jobim,
Ignorado, porque tu
Não ouviste o bandolim.

V
Aqui jaz a minha Vida
De pensamento incandescente
E da conclusão perdida
Pelo meio envolvente.

Aqui jazem os meus Vícios,
Parceiros de caminhada,
¿Amantes¿ de Vinícius,
Poeta da madrugada.

Aqui jaz a minha Voz
Tão calada, para cúmulo.
Esperando: o amor que nós
Levaremos para o túmulo.

X
Ali jaz esse Xenófobo
Dalgum ¿povo superior¿
Incitando para o fogo,
Para a falta de amor.

Z
Aqui jaz Zebra casmurra
Iludida pela vida
Pois desejava ser burra
E nunca para tal fora ouvida.

Postado por Pássaro em 09:08 PM | Comentários (0)

outubro 08, 2003

Prelúdio do ABC da Tristeza

Prelúdio do ABC da Tristeza

Se recuarmos 43 anos e imaginarmos que estamos em Montevideu, poderiamos estar sentados ao lado do poeta Vinícius de Moraes quando ele escreveu isto, que antecipa o "abc" que tenho para disponibilizar um dia destes:

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção.
É claro que te acho linda
E em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz

Mas acontece que eu sou triste...

Montevideu, 1960

("Dialéctica", Vinícius de Moraes, in "Para Viver um Grande Amor - Crônicas e Poemas", edição da Companhia das Letras)

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Se alguém conhecer melhor definição de Poeta esteja à vontade. Com a (sempre) devida vénia:

Olhos que recolhem
Só tristeza e adeus
Para que outros olhem
Com amor os seus.

Mãos que só despejam
Silêncios e dúvidas
Para que outras sejam
Das suas, viúvas.

Lábios que desdenham
coisas imortais
Para que outros tenham
Seu beijo demais.

Palavras que dizem
Sempre um juramento
Para que precisem
Dele, eternamente.

(O Poeta, Vinícius de Moraes, in "Para Viver um Grande Amor" - Crônicas e Poemas, edição Companhia das Letras)

Postado por Pássaro em 09:04 PM | Comentários (1)

outubro 06, 2003

ILHÉU DE CONTENDA

Do filme que referenciei a propósito das músicas que mais tenho ouvido queria mostrar o postal alusivo.
Infelizmente a sua largura excede os limites dos Sete Ofícios.
À pessoa que colocou este filme nas salas de cinema e que gentilmente me ofereceu o postal que agora partilho, o meu reconhecido agradecimento, ainda que do ponto de vista financeiro esta fita possa ter sido um "desastre", se tiver sido regra o exemplo da sessão a que fui, onde apenas estavam mais quatro pessoas...três das quais do meu relacionamento pessoal.
Se, entretanto, o produtor não estiver falido e ler este blog, posso sugerir-lhe que contacte o governo cabo-verdiano pois, numa lógica de investimento turístico, seria uma óptima promoção desse país.
Por cá espero que alguém se lembre de colocá-lo em formato DVD, tal como em relação ao filme Bossanova, cuja banda sonora é absolutamente fantástica.
Espero que já tenham conseguido ouvir a música Ilhéu de Contenda", dos Ala dos Namorados, na qual o Nuno Guerreiro excedeu-se e o clarinetista (madeirense por sinal) proporciona-nos um solo fabuloso (não imaginam o que eu tive de me conter para não dizer "solo superior", no seguimento da contra-teoria do "bom selvagem", mas o amor pela música falou mais alto)...

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CONVITE DE DURÃO

Recebi um telefonema de "Durão Mor", convidando-me para Ministro da Ciência e da Tecnologia.
Disse-lhe que não! Que, além de não ser competente para a função, nunca poderia fazer parte de um Governo (ou de uma classe política "lobbyizada") sem visão estratégica e integrada e sem noção de País.
Onde não se faz uma aposta séria na Educação e burocratiza-se em excesso todas as boas vontades sociais.
Perguntei-lhe o que ele tinha feito da minha sugestão de criar as Sociedades de Dimensão Social (num destes dias clarifico este tema) ... mandou-me o chefe de gabinete dizer, numa carta, quando poderia ter sido por email (poupava o dinheiro do selo!), que aquela lhe tinha merecido a melhor atenção. Soube, tempos mais tarde, que, em vez de "atacar o mal pela raíz", decidiu ir pela via penal e inconsequente, pois os empresários sem escrúpulos já deverão ter saído do país com a empresa fechada/transferida para outro país, deixando famílias inteiras na miséria.
Somos o País das oportunidades perdidas, onde o interesse de todos é subalternizado por interesses particulares ou sectários, onde Chefes de Bombeiros andam a passear os "amigalhaços" em helicópteros de combate a chamas em época de incêndios... e onde, em vez de termos profissionais qualificados, acabamos por ter "comerciantes das profissões".
Porque o que conta é o dinheiro e a imagem... E quem vier atrás que feche a porta!
Viva o regabofe! Espantem-se se, qualquer dia, passarmos a dizer "Arriba"!
E ainda me pedem para pousar? Prefiro ser Pássaro!

P.S. - Este é um País de Ficção. Qualquer semelhança com factos, personagens ou locais poderá não ter sido mera coincidência...

Postado por Pássaro em 08:57 PM | Comentários (0)

outubro 05, 2003

Final de tarde cinzento

Num final de tarde cinzento quero aproveitar para cumprimentar todas as pessoas que têm vindo ao meu blog e, em especial, as que me honram com os seus comentários, de qualidade, os quais valorizam, ainda mais, este "quotidiano bloggista".
Aproveito para dizer que todas as críticas, comentários, sugestões e desafios serão sempre bem vindos e devidamente equacionados.
E para que não fique rotulado de "pássaro distante e... ingrato", gostaria de partilhar algumas melodias que têm acompanhado, ultimamente, os escritos deste "blog".
1) Todo o sentimento - Chico Buarque
2) A mais bonita - excepcional dueto de Chico Buarque e Bebel Gilberto
3) Sweet Lorraine - interpretação fabulosa de Ben Webster
4) Charity Rag - Bud Shank ao seu melhor nível
5) Beijo de Longe - Cesária Évora
6) Ilhéu de Contenda - Ala dos Namorados (música que serviu de base a um delicioso filme com o mesmo título, passado em Cabo Verde, na Ilha do Fogo)
7) Janelas Abertas - Gal Costa cantando músicas de Tom Jobim

Se houver alguém interessado em mais informações sobre as mesmas, deixo de seguida o meu endereço de email:
passarodistante@hotmail.com

Boa semana e, parafraseando um comentário recentemente recebido, que as pedras do cais continuem a ser as da nossa imaginação...

Postado por Pássaro em 08:53 PM | Comentários (0)

outubro 03, 2003

Diz-me

Diz-me (Pássaro Distante, 02.10.2003)
I
Diz-me que não és, só, o sonho,
O mais lindo, da minha vida...
Diz-me que és real;
E não uma réstia de areal
Que se esvai por entre as mãos...
Como quando acordamos dum sonho...
Aquele que mais desejámos realizar um dia
E que, pelos descaminhos do nosso destino,
Nos é oferecido com sinceridade...
II
Não encontro poesia mais bonita
Ou música mais melodiosa
Que este sentimento a arder
Num maltratado peito... sem jeito,
Que tem tanto de sereno
Quanto de intranquilo
E que mal ficaria refeito
Se, um dia, não te pudesse ter.
III
Diz-me, Musa mais bela
Que qualquer aguarela
E mais gentil de entre os seres sensíveis:
Que fiz para te merecer
E merecer
Tantos mimos inaudíveis
Face ao presente que temos
E no qual (sobre)vivemos?
IV
Tu que polvilhaste a minha tela
Com magia e com a esperança
De respirar-te na plenitude
E de, também, fazer-te feliz,
Mulher bela,
Explica-me este sonho
Do qual tenho medo de acordar,
E de chorar,
Tal como a chuva quando cai
Após ter visto o arco-íris.
V
Gostaria que fosses o mar da minha vida
E não um mero oásis no deserto,
Que pode saciar a nossa sede,
Quando por perto,
Mas depois tem de ser deixado para trás,
Para prosseguirmos a caminhada
Dum destino imprevisto
Ou de um rumo mais que visto
Que teime em nos absorver.
VI
Junto às escadas do teu cais
Espera-te alguém que te quer
Não pelo que pareces mas pelo que és
Ou pelo que devias ser:
Uma linda ave genuína,
«Desagrilhoada» da rotina
E da censura,
Voando da forma mais pura
E pousando no meu querer...
No teu bem-querer.
VII
Dei um mergulho no teu mar,
Meu confidente e amigo
E que me deixa chorar
Só porque não estás comigo.
Trouxe esse sal no meu corpo
Para que não fique mais morto
De saudades dessa mulher
Que diz que me ama...
Que diz que me quer...
Minha querida Musa
(Nome que já não se usa),
Minha bela Dama.

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Retirei a imagem do "cais do pensamento", local onde escrevo algumas vezes e leio noutras ou fico simplesmente sentado nas escadas à beira-mar... por dificuldade de visionamento deste blog.

-----------------

Uma pessoa amiga disse que eu era um Pássaro despersonalizado por Vinícius de Moraes... assim seja. Ficava mal comigo se não deixasse no meu blog aquilo que dele me tem marcado ao longo desta existência e sempre com a devida vénia, caso haja alguma mente mesquinha por direitos autorais sobre "obras-primas" da natureza, humana no caso:

PROCURA-SE UM AMIGO

Não precisa ser homem,
basta ser humano,
basta ter sentimentos,
basta ter coração.

Precisa saber falar e calar,
sobretudo saber ouvir.

Tem que gostar de poesia,
de madrugada, de pássaros,
se sol, de lua, de canto, dos ventos
e das canções da brisa.

Deve ter amor,
um grande amor por alguém,
ou então sentir a falta de não ter esse amor.

Deve amar o próximo e respeitar
a dor que os passantes levam consigo.

Deve guardar segredo sem se sacrificar.

Não preciso que seja de primeira mão,
nem é imprescindível que seja de segunda mão.

Pode já ter sido enganado,
pois todos os amigos são enganados.

Não é preciso que seja puro,
nem que seja de todo impuro,
mas não deve ser vulgar.

Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e,
no caso de assim não ser,
deve sentir o grande vazio que isso deixa.

Deve ter ressonâncias humanas:
seu principal objectivo deve ser o de ser amigo.

Deve sentir pena das pessoas tristes
e compreender o imenso vazio dos solitários.

Deve gostar de crianças e lamentar
os que não puderam nascer.

Que saiba conversar coisas simples,
de orvalho, de grandes chuvas
e de recordações de infância.

Precisa-se de um amigo
para não enlouquecer,
para contar o que se viu
de belo e triste durante o dia,
dos anseios e das realizações,
dos sonhos e da realidade.

Deve gostar das ruas desertas,
de poças de água
e dos caminhos molhados,
de beira da estrada,
de mato depois da chuva,
de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver,
não porque a vida é bela,
mas porque já se tenha um amigo.

Precisa-se de um amigo
para se parar de chorar.
Para não se viver debruçado no passado
em busca de memórias perdidas.
Que bata nos ombros sorrindo e chorando,
mas que nos chame de amigo,
para se ter consciência
de que ainda se vive.

-----------------

Este Pássaro decidiu participar no concurso de Sonetos promovido na página www.viniciusdemoraes.com.br


Soneto do Apelo

Musa, feiticeira de olhares lindos,
Prisioneira num castelo perdido,
Procurando meu olhar mais querido
E em busca de sonhos desavindos:

Liberta-te desse quotidiano!
Embriaga-me com tua beleza
No porto desta minha natureza
Ou no cais deste pássaro profano.

Precoce quimera estonteante:
Monopolizar-me, assim, desejaste.
Exibindo-me o melhor do teu ser.

Todos meus sentidos extasiaste.
Esperar por ti é o meu viver
Neste cais: solitário e distante.

Postado por Pássaro em 08:50 PM | Comentários (0)

Soneto do Apelo

Musa, feiticeira de olhares lindos,
Prisioneira num castelo perdido,
Procurando meu olhar mais querido
E em busca de sonhos desavindos:

Liberta-te desse quotidiano!
Embriaga-me com tua beleza
No porto desta minha natureza
Ou no cais deste pássaro profano.

Precoce quimera estonteante:
Monopolizar-me, assim, desejaste.
Exibindo-me o melhor do teu ser.

Todos meus sentidos extasiaste.
Esperar por ti é o meu viver
Neste cais: solitário e distante.

Postado por Pássaro em 12:00 PM | Comentários (0)

outubro 02, 2003

Metade Gémeos

Para quem duvide do signo deste Pássaro Distante (como aquela terra coberta pelo mar), aqui vai uma descrição dos nativos de Gémeos:

Vivos. Amáveis. Faltam-lhes firmeza e ordem.

Detestam a solidão e a monotonia.

Meticulosos. Optimistas. Curiosos.

Indecisos e por vezes ingénuos.

Interessam-se por tudo.

Gostam de "reinar". Gozões. Gostam de sair.

Sensuais. Têm sorte nos negócios e no amor.

Têm horror ao drama.

Em geral são muito sociáveis.


--------------------------

Oswaldo Montenegro difundiu esta "Pérola", com a devida vénia:

Que a força do medo que tenho não me impeça de dizer o que penso.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas outra metade é silêncio.

Que a música que eu ouço ao longe seja linda, ainda que triste.
Que aquela que eu ame seja para sempre amada, ainda que distante.
Porque metade de mim é partida e a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor,
apenas respeitadas como a única coisa que resta a uma alma inundade de sentimentos.
Porque metade de mim é o que eu ouço, mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que mereço,
que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflicta em meu rosto o doce sorriso que eu me lembro de ter da infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei...

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquuietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é a platéia e a outra metade é canção.

E que a minha loucura seja perdoada,
porque metade de mim é amor
e a outra metade...também.

Postado por Pássaro em 08:36 PM | Comentários (0)